09
abr
2019
Crítica: “O Ato de Matar”
Categorias: Críticas • Postado por: David Ehrlich

O Ato de Matar (The Act of Killing)

Joshua Oppenheimer, 2012
Roteiro:Joshua Oppenheimer
Instituto de Cinema da Dinamarca, Dogwoof Pictures, Drafthouse Films,

4.5

Muito já se discutiu na filosofia sobre a maldade humana. Nietzsche era contrário à ideia de que o homem bom é o oposto do homem mal, afirmando serem ambos expressões diferentes dos mesmos impulsos básicos, mais diretos no mal. Hannah Arendt, ao falar sobre a “banalidade do mal”, afirmou que atos hediondos como o Holocausto foram possíveis devido a pessoas comuns, até estúpidas, incapazes de pensarem por conta própria e motivadas por promoção profissional mais do que por qualquer ideologia.

Sendo tema tão pertinente na filosofia, é lógico que inúmeros cineastas não deixariam de explorá-lo. Um desses cineastas é Joshua Oppenheimer. Documentarista nascido nos EUA e baseado na Dinamarca, ele não veio a encontrar sua “musa do mal” em nenhum desses países, mas sim em um lugar surpreendentemente semelhante ao Brasil, apesar de estar do outro lado do mundo – a Indonésia, inspiração para um dos documentários mais corajosos, poderosos, horríveis, estranhos, surrealistas e, acima de tudo, relevantes dos últimos tempos: O Ato de Matar.

Em 1965, após uma controversa tentativa fracassada de golpe de Estado por parte de movimentos comunistas, as forças armadas indonésias, lideradas pelo major-general Suharto, assumiram o controle do país. Logo em seguida, Suharto sancionou a criação de esquadrões da morte, formados por gângsteres e paramilitares, e iniciou um dos mais brutais expurgos da história moderna: Em pouco mais de seis meses, entre dois e três milhões de “comunistas” foram liquidados, abrindo o caminho para uma ditadura militar que durou mais de 30 anos – e cujo legado continua a influenciar a Indonésia até hoje.

Inicialmente, Oppenheimer tentou fazer um documentário sobre as vítimas sobreviventes do massacre – algo que ele eventualmente faria em O Peso do Silêncio -; porém, O Ato de Matar logo se tornou um filme sobre um tema muito mais assombroso e incomum: Aqueles que de fato cometeram os assassinatos em massa, agora velhos, e o que eles sentem ou não em relação ao que fizeram.

Mais especificamente, Oppenheimer focou-se em Anwar Congo e seu colega Adi Zulkadry. Nos anos 60, ambos eram gângsteres de baixo escalão no mercado negro indonésio. Jovens e exibidos, eles amavam o cinema, e tinham Elvis Presley e Marlon Brando entre seus maiores ídolos. Com a tomada do poder pelos militares, porém, Anwar e Adi passaram a liderar um esquadrão da morte, e logo se converteram em máquinas de matar que viam filmes americanos de guerra e gângsteres em busca de métodos de execução mais brutais – no começo de O Ato de Matar, Anwar gloriosamente se gaba de ter matado quase mil pessoas, porém sempre tentando justificar a si mesmo e aos crimes que cometeu.

Para explorar a forma em que se deu a impunidade de Anwar, Adi e tantos outros envolvidos no horror sem este parecer uma história distante e irrelevante, Oppenheimer escolheu por uma abordagem que desafia os próprios limites do gênero documental: Ele elencou os carrascos em uma adaptação de suas próprias vidas, permitindo a eles reencenarem suas participações nos eventos, no estilo que quisessem.

O Ato de Matar passa então a acompanhar Anwar e Adi conforme eles buscam por belos cenários naturais para filmagens e produzem seu filme. E o resultado é como nada já visto, uma série de imagens estranhas que nos permitem entrar na mente perturbada e autoindulgente dos assassinos, em um surrealismo que assumiria ares de sonho, se não fosse perturbadoramente embasado na realidade.

Em um dado momento, Anwar e outros dois homens, vestidos em coloridas roupas de caubói, perseguem Adi (que é obeso) vestido em um drag espalhafatoso e, quando o alcançam, começam a bater na barriga dele, dizendo “Então você está grávida de um comunista? Vai nascer um comunistinha daí de dentro?”. Seria uma cena digna de um filme de John Waters, se eles não estivessem reencenando mais um de suas centenas de crimes.

Ao mesmo tempo, Oppenheimer aproveita para explorar de forma mais geral a esquizofrenia da cultura indonésia em cima do genocídio que se desenvolveu ao longo das décadas, com comemorações pela matança e assassinos aparecendo na TV como celebridades. A sensação é de ser uma Alice observando uma versão assustadora do País das Maravilhas, em que a lógica democrática é jogada para o alto e virada ao avesso, e qualquer tentativa de apontar isso é vista como “criar problemas” (embora, vendo minha linha do tempo no Facebook, talvez esse País das Maravilhas esteja mais próximo do que deveria).

O Ato de Matar é um filme estranho, de fato. Mas é também ousado e provocativo, e é difícil assisti-lo sem ficar com o queixo caído, nem que seja pela absurdidade que retrata. Repetidas vezes exclamei “uau” enquanto todo o oxigênio era retirado de meus pulmões. Os gigantes do cinema Werner Herzog e Errol Moris tiveram reações parecidas, e assim que viram algumas das primeiras cenas finalizadas aceitaram se inscreverem como produtores executivos do filme.

Mas não foram apenas eles: Em todo festival no qual foi originalmente exibido – muitos renomados, como o Berlinale na Alemanha, o True/False nos EUA, e os festivais de Sidney e Melbourne na Austrália -, queixos caíram de incredulidade e fascinação diante de tão perturbador espetáculo. Não à toa, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário, embora tenha perdido para o menos polêmico A Um Passo do Estrelato. Porém uma coisa é certa: Em tempos de perigosos revisionismos históricos, O Ato de Matar é um documentário mais necessário do que nunca.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.