03
abr
2019
Crítica: “Quero Ser Grande”
Categorias: Críticas • Postado por: David Ehrlich

Quero Ser Grande (Big)

Penny Marshall, 1989
Roteiro:Gary Ross e Anne Spielberg
20th Century Fox

4.5

Hollywood é conhecida como a “Fábrica de Sonhos”, e seus estúdios se preocupam bastante com tal imagem. Sendo assim, como toda fábrica, eles adoram quaisquer artifícios que lhes permitam produzir filmes em massa com narrativas bastante semelhantes, que são exploradas até a morte de qualquer sinal de interesse do público. O mais recente artifício descoberto (ou melhor, redescoberto) por Hollywood é o dos filmes de super-heróis adaptados de histórias em quadrinhos, mas nem sempre foi assim. O mais novo desses filmes de super-heróis, Shazam!, traz de certa forma um retorno de um artifício que entrou em rápida erupção no final dos anos 80: As chamadas “comédias de troca de corpos”.

Basicamente, eram filmes de fantasia nos quais, em um passe de mágica, filhos se tornavam os próprios pais, crianças assumiam os corpos de adultos, e as mentes de homens velhos revertiam de corpo com jovens, obrigando-os a trocarem de lugar. Eram em geral adequados para toda a família e supostamente cômicos – embora quase sempre fossem mais previsíveis do que engraçados: A tendência já começou mal em 1987, com Tal Pai, Tal Filho (com Dudley Moore e Kirk Cameron); em 1988, foi a vez de De Volta aos 18 (George Burns e Charlie Schlatter) e Vice Versa (Judge Reinhold e Fred Savage); e em 1989, de Um Sonho Diferente (Jason Robards e Corey Feldman).

Justo quando todos pareciam já terem contado esse tipo de história e todo tipo de amostragem pesquisada se mostrava desfavorável a fazer um filme sobre o mesmo tópico, a 20th Century Fox entrou na brincadeira. Com um time formado pelos produtores Robert Greenhut e James L. Brooks, pela diretora Penny Marshall e pelos roteiristas Gary Ross e Anne Spielberg (irmã de Steven Spielberg), em 1989 eles lançaram o filme Quero Ser Grande. E se faltarem argumentos quanto à excelência desse filme, ao menos dá pra rir do fato de que Quero Ser Grande sozinho arrecadou mais em bilheterias do que todos os filmes anteriormente citados juntos.

Algumas boas ideias inspiraram o filme de tal forma que este se colocasse à parte das produções anteriores do gênero. A começar que ele é mais um filme de “mudança de corpo” do que de “troca de corpo” (embora tenha sido colocado no mesmo saco de qualquer jeito). Em Quero Ser Grande, David Moscow e Tom Hanks se revezam interpretando Josh Baskin, um amável garotinho de 13 anos que ama seus pais e certamente precisa deles… Mas está começando a perceber as vantagens em ser mais velho e independente – impressionar a garota mais bonita da escola sendo uma delas -, mesmo que, por exemplo, aparentemente signifique deixar para trás os brinquedos com os quais se diverte.

Uma noite, em um parque de diversões, Josh expressa essa vontade secreta para uma agourenta máquina de desejos, pedindo para se tornar “grande”. Como é típico de uma criança não muito esperta, “grande” para ele não significa nada em específico; ele apenas quer crescer. Dito e feito, na manhã seguinte ele acorda e descobre que foi transformado em um genuíno homem adulto.

Com seu desejo misteriosamente realizado, Josh precisa daí em diante navegar pela realidade do mundo adulto, encontrando várias dificuldades e inesperadas – principalmente no que concerne a trabalho -, mas também rapidamente aprendendo muito (aparentemente, é possível crescer sem parar de brincar!) e ensinando muito aos cínicos adultos que encontra em seu caminho – especialmente uma colega de trabalho (Elizabeth Perkins) que se vê estranhamente atraída pelo adulto inocente que crê que Josh é, e começa a ter um relacionamento romântico com ele.

Através de uma direção certeira, Penny Marshall conseguiu tornar Quero Ser Grande uma das comédias mais doces, afáveis e pesadamente nostálgicas dos anos 80, trazendo um olhar diferenciado à triste realidade de crescer, com uma sensibilidade sutil que torna o filme constantemente atraente e envolvente, mesmo nos momentos em que o roteiro parece perder o foco.

Isso, porém, não seria possível sem a ajuda de Tom Hanks, que tem aqui uma de suas performances mais impressionantes, e que foi uma verdadeira virada em sua carreira: Começando sua busca pelo estrelato em sitcoms, fazia apenas cinco anos que ele tinha feito sucesso com dois longas-metragens seguidos, as comédias românticas/sexuais Splash e A Última Festa de Solteiro. Após isso, porém, sua carreira perambulou por caminhos não muito claros, com filmes menos bem-sucedidos como a comédia Um Dia a Casa Cai e o drama Nada em Comum.

Quero Ser Grande foi o filme que eliminou qualquer dúvida que permanecesse quanto a sua versatilidade e comprovou que ele podia fazer mais do que comédias românticas. Sua performance simples e sincera (em muito semelhante ao que mais tarde ele faria como Forrest Gump) garantiu-lhe sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator. E, embora ele não tenha vencido (perdeu para Dustin Hoffman em Rain Man), sua atuação como Josh Baskin abriu caminho para que ele eventualmente compensasse a derrota com duas vitórias seguidas em 1993 (Filadélfia) e 1994 (Forrest Gump).

30 anos depois, Quero Ser Grande mantém-se como um daqueles filmes essenciais para qualquer fã de cinema, e que são sempre bem-vindos para serem assistidos. E para aqueles que quiserem se aventurar no mundo da produção cinematográfica, ensina uma lição valiosa: Só porque uma história já foi contada muitas vezes, não quer dizer que você não possa conta-la melhor. Seja ousado e não tema o fiasco, pois o mundo é sim um lugar onde boas narrativas são recompensadas.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.