23
abr
2019
Hollywood e a guerra de incentivos fiscais!
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

Com a recente situação instável da Ancine, muito debate tem ocorrido. Nesses debates, foram feitos alguns comentários muito inteligentes – e uma boa quantidade de comentários estúpidos. Um desses comentários estúpidos é o de que Hollywood é o que é sem incentivos fiscais estatais vindos de impostos. Tal argumento não poderia estar mais errado: Hollywood ama incentivos estatais. E nos últimos vinte anos, estes em muito influenciaram os filmes que assistimos.

Afinal, pouquíssimos são os que podem tirar US$ 30 milhões do próprio bolso para produzir um filme. Portanto, produtores precisam achar formas de reduzir custos para si mesmos. Uma forma clássica é o marketing indireto: Empresas pagam determinada quantia a produtores, e seus produtos aparecem no filme como uma forma de publicidade.

Outra forma de economizar dinheiro é filmando seu projeto em outro país onde os custos de produção sejam mais baratos – as chamadas runaway productions. A indústria cinematográfica italiana, por exemplo, prosperou entre os anos 50 e 80 oferecendo pessoal, material e cenários para filmes épicos e de fantasia.

Em 1997, porém, uma revolução ocorreu na história das runaway productions quando Toronto criou uma lei de incentivo à produção audiovisual, oferecendo até 25% de reembolso para produções americanas que filmassem na cidade ao invés de nos EUA.

A ideia era simples: Sendo a cidade parecida com metrópoles americanas como Boston, Filadélfia e Nova York, produtores se sentiriam atraídos em filmar projetos ambientados nessas cidades no Canadá ao invés de nos lugares reais e economizar 25% do orçamento de filmagem; e, filmando no Canadá, iriam obviamente se hospedar em hotéis canadenses, comer comida canadense, alugar equipamentos canadenses, e dariam preferência a contratar canadenses para a equipe de produção, gerando empregos e movimentando a economia.

Logo após Toronto, outras regiões do Canadá, como Vancouver e Calgary, criaram seus próprios incentivos de produção, alguns deles chegando a 35% de reembolso. E assim começou o Grande Êxodo Para o Norte no cinema americano: Apenas na primeira década após a criação do incentivo, mais de 1500 produções americanas para cinema e TV foram filmadas no Canadá.

Lógico que é preciso que as produções cumpram uma série de pré-requisitos para receberem os incentivos, como orçamentos estimados mínimos e porcentagens da equipe de produção que devem ser canadenses. Quanto mais pré-requisitos cumprir, maiores os incentivos: Depois dos municípios, o governo federal canadense criou o Crédito de Impostos por Serviços de Produção em Cinema, que cobria 11% (atualmente 16%) dos custos trabalhistas. Para isso, o diretor ou o roteirista do filme precisa ser canadense, assim como pelo menos um dos dois atores mais bem pagos. Se você já se perguntou como é que atores canadenses como Seth Rogen e Rachel McAdams subiram ao estrelato em Hollywood nos anos 2000, isso talvez ajude a entender.

Depois do Canadá, outros países, como Austrália, Hungria, Inglaterra, Malásia e México entraram na brincadeira, criando suas próprias leis de incentivo para atrair produções americanas. Mais recentemente, a cidade chinesa de Qingdao chamou a atenção dos grandes estúdios americanos com reembolsos de 40%.

O caso mais emblemático, porém, foi provavelmente o da Nova Zelândia, onde Peter Jackson fez uma campanha de lobby para que o governo aprovasse uma medida que permitisse reembolsos multimilionários. O lobby foi bem sucedido, e se não fosse por isso Jackson provavelmente jamais teria conseguido filmar O Senhor dos Anéis em sua terra natal. Atualmente, a população neozelandesa paga o equivalente a US$ 45 milhões de impostos por ano a companhias de cinema globais e nacionais.

Uma verdadeira guerra mundial de incentivos fiscais estava tomando forma, e os EUA logo perceberam que se não entrassem nela sairiam perdendo. Em 2001, Louisiana foi o primeiro estado americano a criar uma lei própria de incentivo que oferece 30% de créditos de impostos, mais um bônus de 10% por contrato de funcionários locais. De repente, começaram a aparecer nos cinemas com maior frequência filmes mostrando a rica cultura e folclore locais. Estados como Califórnia, Colorado, Geórgia, Illinois, Nova York e vários outros criaram suas próprias leis de incentivo. Mesmo estados de menor porte econômico como o Novo México chegam a gastar mais de US$ 50 milhões por ano em incentivos.

Mas esses incentivos acabam mesmo valendo a pena? Bem, depende de caso para caso. O Canadá sem dúvida não se arrependeu de sua decisão. Na Nova Zelândia, a indústria audiovisual nacional emprega mais de 14 mil pessoas, e para cada dólar gasto, estima-se que entre $1,54 e $2,58 são devolvidos ao país. Nos EUA, o pequeno estado de Rhode Island criou 4 mil novos empregos. Por outro lado, em Connecticut e Massachusetts os programas de incentivo pouco ajudaram a aquecer a economia, e sofrem ameaça de serem extintos. Em 2011, o Reino Unido extinguiu um programa que financiava produções através da Loteria Nacional.

Ainda assim, para os grandes estúdios, este é um momento empolgante: A combinação certa de incentivos pode cobrir até 60% do orçamento de um filme. E, em uma daquelas situações em que o mercado afeta a arte, acaba gerando em Hollywood um interesse maior por histórias e profissionais fora de Hollywood. Por que não buscar talentos canadenses? Por que não um filme de um caso real em Rhode Island? Se economiza dinheiro e depois ainda gera mais dinheiro, tudo acaba sendo válido.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.