30
maio
2019
Crítica: “Rocketman”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

And I think it’s gonna be a long long time
‘Till touch down brings me round again to find
I’m not the man they think I am at home
Oh no no no I’m a rocket man
Rocket man burning out his fuse up here alone


Rocketman

Dexter Fletcher, 2019
Roteiro: Lee Hall
Paramount Pictures

4.5

Elton John. Um dos maiores cantores e mais excêntricos de todos os tempos. Só Michael Jackson rivaliza com esse senhorzinho. Também farei especial do grande cantor, porém antes disso, vamos falar desse filme.

A cena inicial é nosso querido amigo Elton (Taron Egerton) indo a um grupo de viciados e sua primeira frase marcante é:

“Oi, meu nome é Elton Hercules John. Eu sou viciado em álcool, drogas em geral, cocaína, maconha, sou bulímico, tenho acessos de raiva e tenho vício em sexo.”

O momento, por si só, é um resumo perfeito do que a obra propõe: contar a história da personalidade através de seus infernos pessoais, os fracassos, vícios e traumas que não o impediram de se tornar um dos maiores cantores de todos os tempos. Representar apenas as suas glórias seria tarefa fácil e comum a todos.

A narrativa é contada em primeira pessoa, através de flashbacks narrados pelo próprio Elton, que descreve sua trajetória desde a infância, usando e abusando da fantasia.

O filme, aliás, é recheado de momentos simbólicos destacados por sua competente fotografia. Quando vemos a infância pobre do garoto, cheio de conflitos com os pais, a paleta de cores mostra-se desbotada, desinteressante. Então, quando a criatividade e fantasia surgem em tela, geralmente são aliadas às canções, uma fuga do pequeno inferno em que o protagonista vivia. É sempre diante do piano que ele se permite extravasar.

Vale ressaltar, contudo, que o foco aqui não é a música de Elton, mas sua persona, como ser humano. As cores chamativas e os momentos extravagantes não tiram o peso de sua jornada. E dentro desse contexto, Rocketman acerta ao renegar suas principais canções ao papel de trilha sonora de luxo. Por mais fácil que fosse transformar tudo em uma grande sequência musical, o longa faz das músicas ferramentas orgânicas de roteiro.

Roteiro esse que não se priva de mostrar os traços mais duros da personalidade do cantor, admitindo sua desonestidade em diversos pontos, a falta de proximidade com o pai, a convivência com uma mãe que pouco se importa com os sentimentos do filho e, claro, a sexualidade de Elton. Se hoje sua carreira e jornada soam impecáveis, talvez seja pela falta de medo de arriscar, apresentando seu lado mais sombrio ao público. Não há a intenção de transforma-lo em um mito ou ídolo perfeito, muito pelo contrário. Trata-se da história de um homem “comum”, que sofre, tem carências e deseja ser amado como qualquer outro.

Taron Egerton (Kingsman: O Círculo Dourado), além de ser semelhante fisicamente ao cantor na juventude, absorveu os traços, trejeitos e visuais de Elton de forma sensível, o representando de maneira natural, tomando para si sua persona extravagante nos palcos, ao mesmo tempo em que não deixa de lado o jovem tímido que já fora Reginald Dwight (nome de batismo de Elton). O ator é dono de todas as cenas em que está presente e merece reconhecimento pelo fato de não ter dublado nenhuma canção. Egerton cantou todas elas ao público, a sua maneira, no limite de sua voz. Possivelmente o melhor trabalho de sua carreira até aqui.

Além disso, é incrível como também é apresentado ao espectador a figura de Bernie Taupin (Jamie Bell), o principal letrista e amigo de Elton. A amizade dos dois e a confidencialidade entre ambos é descrita de forma muito bonita, como se o longa fosse quase que um agradecimento a Taupin pelos anos de companheirismo e apoio.

Além disso, o elenco está incrível e impactante. Jamie Bell (Jumper), Steven Mackintosh (Luther) e Bryce Dallas Howard (Jurassic World) cumprem bem os papéis de amigo e pais de Reggie (seu apelido de infância), mostrando as relações humanas do personagem e como elas afetam a sua personalidade.

Outro destaque da obra é o figurino. O cantor é conhecido mundialmente pelos seus trajes espalhafatosos e chamativos, e o filme consegue recriar alguns deles de forma impecável, além de retratar a época com bastante fidelidade. Em relação à trilha sonora, todos os seus sucessos estão presentes, com destaque para as cenas que trazem as canções “Saturday’s Night Alright” e “Your Song”, que são algumas das melhores do filme.

Em suma, o filme é uma dramatização pessoal dos fantasmas da vida do cantor e como lidou com eles, e consegue fazer isso sem cair no clichê da volta por cima. Poderia ser apenas uma trama que coloca a culpa nos pais e na fama. Contudo, o longa não cai nesse lugar-comum. Na cena final, Elton sabe que a culpa de ter entrado naquele inferno não é dos outros, e assume a responsabilidade de seus atos, como se estivesse perdoando a si mesmo.

Rocketman é uma biografia de um artista que quebra barreiras sem medo de mostrar quem realmente é. Mistura fantasia e realidade para contar a história conturbada de um dos maiores cantores do mundo, com uma abordagem sincera e corajosa. Além de ser uma linda e honesta homenagem a sua carreira.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.