23
maio
2019
Fazer Política com Cinema
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

O senso comum afirma que o cinema existe primariamente para dois motivos: Fazer dinheiro e escapar dos problemas do mundo. Portanto, não haveria sentido em fazer um filme que, ao invés de entreter, foca-se em expor eleições, greves, racismo e ditadura. Uma lenda urbana de Hollywood inclusive afirma que o produtor Samuel Goldwyn – de filmes como Os Melhores Anos de Nossas Vidas, Garotos e Garotas e Porgy & Bess -, ao ser confrontado por um roteirista com aspirações políticas, respondeu: “Se você quer passar uma mensagem, use o correio”.

Ainda assim, há uma corrente que acredita que o cinema deve sim informar sobre eventos e condições sociais reais, tomar partidos e agitar o público. É o chamado cinema político: Nada ambíguo, nada sutil, e totalmente voltado para a forma como o poder é distribuído no mundo real, gerando desigualdades, intrigas e conflitos, além de diversas ideologias que tentam, cada uma à sua maneira, consertar isso.

Provavelmente um dos cineastas políticos mais conhecidos no mundo é o grego naturalizado francês Costa-Gavras, que ascendeu à fama a partir dos anos 60 com filmes como Z, A Confissão e Desaparecido, que denunciavam diferentes ditaduras ocorridas ao redor do mundo – Grécia, Tchecoslováquia e Chile, nos casos citados. Mas outros cineastas também ficaram conhecidos por seus filmes políticos, alguns bastante incomuns: Jean-Luc Godard abordou a política através do cinema experimental, e o israelense Ari Folman inclusive juntou documentário e animação para falar de política em Valsa com Bashir.

Foi mais ou menos na mesma época em que Costa-Gavras tornou-se famoso que teóricos como Jean-Louis Comolli, Louis Althusser e Laura Mulvey, unindo teorias marxistas e psicanalíticas, começaram a repensar o cinema como um local para a produção e manutenção da ideologia estatal dominante, no que ficou conhecido como “Teoria do Aparato”. Segundo esta teoria, o cinema é ideológico por natureza, uma vez que filmes são criados para representar a realidade – mesmo que de forma escapista – e suas mecânicas de representação (que incluem a câmera e a edição) já são por si só ideológicas. O desafio, portanto, seria usar o cinema como uma forma de criticar a ideologia dominante.

Durante da década de 70 a Teoria do Aparato foi uma das mais populares nos estudos de cinema, porém ao longo das décadas seguintes ela foi sendo abandonada, conforme teóricos da área foram se afastando desse caminho mais politizado. Foi apenas em anos mais recentes que alguns jovens cineastas independentes (Noah Baumbach e Greta Gerwig estando entre eles) decidiram revisitar essa teoria para tentar entender o que significa chamar o cinema de político – e como fazer filmes pessoais que reflitam questões sociais e políticas mais amplas.

Essa dúvida de como conciliar pessoal e político não é nada novo, e muito menos originária do cinema. Movimentos estudantis e feministas do final dos anos 60 já argumentavam que “o pessoal é político” – ou seja, a experiência pessoal está sempre conectada a estruturas sociais e políticas maiores. No universo do cinema, isso foi adaptado para um argumento um pouco mais complexo: Se um filme não refletir a vida pessoal do cineasta, o assunto de importância cívica que ele tenta abordar perde muito de seu valor.

Assim, filmes como Frances Ha e Ladybird, embora contem histórias extremamente pessoais inspiradas nas experiências íntimas de seus realizadores, acabam evidenciando o contexto social em que estão inseridos: Uma geração de jovens livres-pensadores que, entrando na vida adulta em um cenário de crise econômica, veem-se sem emprego, sem dinheiro e com dificuldade em conseguir uma casa própria, incapazes de tornarem-se “pessoas de verdade” do jeito como a sociedade de consumo quer que eles sejam. Eles rejeitam a ideologia dominante do Sonho Americano, mas, diante das circunstâncias e sem muito espaço para cometerem erros sem consequências, são obrigados a se adaptarem e a reajustarem a relação que mantém com aqueles que lhes são íntimos.

Isso não quer dizer que o cinema político mais impessoal não continue existindo – e muito menos que filmes supostamente sem intenções políticas não acabem caindo em um ponto crucial: Assim como o pessoal, toda arte (e toda escolha que os artistas fazem) é política.

Um bom exemplo disso ocorreu no ano passado com o filme O Primeiro Homem, cinebiografia do astronauta Neil Armstrong dirigida por Damien Chazelle. Embora bem recebido pela crítica, assim que o filme estreou ele foi alvo de uma inusitada polêmica envolvendo grupos conservadores nos Estados Unidos. O motivo: Uma suposta falta de representação da bandeira americana, o que esses conservadores viram como um sinal de antipatriotismo por parte de Chazelle. O diretor afirmou então que de fato, o filme não mostra a bandeira americana sendo hasteada na Lua, mas o motivo disso seria uma preferência por mostrar o que não se sabe sobre a missão Apollo 11, ao invés daquilo que todos já viram.

Mas mesmo que Chazelle não quisesse conscientemente fazer qualquer tipo de constatação política, o fato de o filme não dar tanto foco à bandeira americana já é por si só um posicionamento ideológico: O diretor não viu o motivo de mostra-la sendo hasteada, e americanos conservadores que não conseguem desligar a chegada à Lua de um sentimento de conquista patriótica notaram isso e se sentiram ultrajados.

O cinema não precisa necessariamente ser “cinema político” para fazer política. Muitas vezes, ele precisa apenas ser cinema.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.