04
jun
2019
A Era dos Super-Heróis do Cinema!
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

O ano de 1938 marca o início da chamada “Era de Ouro das Histórias em Quadrinhos”, com o primeiro aparecimento de um dos mais populares e reconhecíveis super-heróis de todos, Super-Homem. Nas décadas seguintes, duas editoras de quadrinhos se estabeleceram como líderes no mercado de super-heróis, a DC Comics e a Marvel. Esses heróis modernos aumentaram em popularidade conforme dialogavam com os diferentes momentos que marcaram o século 20: A 2ª Guerra Mundial, a Guerra Fria, o movimento dos Direitos Civis… E como é de se imaginar, essa popularidade não podia se limitar ao formato impresso.

Começando com cinesseriados na década de 1940, os super-heróis só teriam seus próprios longas-metragens três décadas depois. Mais uma vez, foi o Super-Homem que abriu o caminho, com o filme de 1978 estrelado por Christopher Reeve. Por muito tempo, porém, filmes baseados em histórias em quadrinhos eram esporádicos, e muitos – a exemplo dos infames Supergirl (1984) e Capitão América (1990) – fracassavam comercialmente.

O ponto de virada veio na década de 2000: A partir de Homem-Aranha (2002) filmes baseados em quadrinhos tornaram-se presença constante no cinema hollywoodiano. Começou assim o que alguns chamam de Era dos Quadrinhos do Cinema, com cineastas procurando novas formas de adaptar super-heróis famosos e não tão famosos para a telona, e cinéfilos assistindo-os em números cada vez maiores.

Em meio a essa elevação na popularidade dos filmes de super-heróis, a Marvel montou seu próprio estúdio de cinema, e em 2008 começou um novo capítulo na história dos filmes de super-heróis com Homem de Ferro. Com uma bilheteria de quase US$ 590 milhões, o filme abriu as portas para um projeto sem precedentes: O Universo Cinematográfico Marvel (MCU), uma longa narrativa de filmes interconectados entre si.

11 anos depois, essa narrativa já se estende por 22 filmes (com um 23º, Homem-Aranha: Longe de Casa, estreando mês que vem), e acumula mais de US$ 21 bilhões ao redor do mundo – a maior franquia cinematográfica de todos os tempos, e falamos apenas de bilheterias: Se incluirmos séries de TV e merchandising, os números vão ainda mais longe.

O sucesso da franquia aumenta a cada fase, independentemente se o super-herói que um filme protagoniza é conhecido ou não: Se Capitão América: O Primeiro Vingador arrecadou US$ 370 milhões em 2011, quatro anos depois Homem-Formiga (super-herói que até muitos fãs da Marvel consideravam uma piada) arrecadaria US$ 150 milhões a mais.

Boa parte desse sucesso se deve não apenas aos filmes em si, mas também a uma das maiores campanhas de marketing do cinema. Cada novo filme – e inclusive cada novo trailer – é aguardado com enorme antecipação. Não à toa, os trailers de Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Ultimato (2019) estão entre os mais assistidos no YouTube, cada um acumulando mais de 200 milhões de visualizações em apenas 24 horas; e quando os filmes foram lançados, ambos superaram os US$ 2 bilhões em bilheteria.

Também não é à toa que campanhas tão estrondosas são feitas: Quando até um filme como Thor: O Mundo Sombrio (2013) custa US$ 170 milhões apenas para ser produzido, estúdios e distribuidoras farão de tudo para ver esse dinheiro de volta. Em blockbusters hollywoodianos, cerca de metade de todo o dinheiro gasto com um filme vai unicamente para o marketing e promoção do mesmo – e filmes de super-heróis não são exceção.

Percebendo o sucesso que a Marvel estava alcançando, sua concorrente de longa data, a DC Comics, resolveu investir em seu próprio universo de filmes de super-heróis. Paralelamente, a 20th Century Fox renovou os filmes dos X-Men, dando novo fôlego à franquia. Juntando as três franquias, temos um boom de filmes de super-heróis como nunca antes: Apenas no ano passado, oito filmes baseados em super-heróis de histórias em quadrinhos foram lançados, juntos representando cerca de um quinto de toda a bilheteria de 2018 nos EUA.

Diante da popularidade do gênero, até mesmo algumas experimentações têm sido possíveis, a exemplo de Deadpool (2016), filme de super-herói inserido dentro da franquia X-Men, porém contrário ao comum e cheio de impropérios. O filme fez enorme sucesso, e sua continuação, Deadpool 2 (2018), tornou-se o filme de maior bilheteria da franquia, arrecadando US$ 785 milhões.

Mas como tudo que sobe em algum momento tem que cair, fica a pergunta: Quando é que o público finalmente cederá à fadiga de filmes baseados em histórias em quadrinhos? Definitivamente não tão cedo: X-Men: Fênix Negra, que estreia este mês, com certeza arrecadará algumas centenas de milhões de dólares, e Homem-Aranha: Longe de Casa e Coringa muito provavelmente serão sucessos de bilheteria, assim como Aves de Rapina no ano que vem.

Mas críticas ao gênero já têm aparecido nos últimos anos. Independentemente de polêmicas quanto à distribuição de salas aqui no Brasil, mesmo nos EUA muitas celebridades discutem como os filmes de super-heróis têm tornado o cinema independente e de arte ainda mais marginal do que já era, e como muitas vezes esses filmes acabam sendo comparados com obras de cineastas como Robert Bresson e Ingmar Bergman: Mesmo que sejam bons ou até muito bons, é inegável que são tipos diferentes de cinema, e não dá para coloca-los no mesmo saco.

Provavelmente será necessário o surgimento de uma nova grande tendência em Hollywood para que possamos analisar os filmes de super-herói com maior clareza. Mas até lá, eles seguem sendo o grande símbolo deste nosso período na história do cinema.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.