26
jun
2019
Como fazer uma boa adaptação de livro
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

Desde seus primórdios, a indústria do cinema ama adaptar a literatura. Afinal, quando seus negócios dependem de atrair pessoas ao cinema, deixar que um autor escreva um livro popular e então apenas adaptar essa propriedade intelectual ao formato de filme envolve um risco financeiro bem menor do que pensar em suas próprias ideias originais.

Isso não quer dizer que adaptações literárias não possam ser boas: Muitos dos melhores cineastas de todos os tempos, como Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, dedicaram grande parte de sua carreira cinematográfica a adaptações literárias; e filmes como O Poderoso Chefão e Um Estranho no Ninho, sempre presentes em listas de melhores da história do cinema, também são por sua vez adaptações de obras pré-existentes.

Adaptações, porém, não são um negócio fácil – apesar de a enorme quantidade delas que é lançada todo ano (uma boa parte delas nem tão boa assim) dar uma impressão do contrário. Afinal, a literatura e o cinema são artes bem diferentes, e um casamento ideal entre elas exige um bom jogo de cintura. De fato, a linha que define uma boa adaptação literária é tão tênue que pode ser considerada uma arte por si só, e não à toa roteiros adaptados possuem sua própria premiação no Oscar.

Principalmente, são dois os grandes erros que uma adaptação pode cometer: Ser divergente demais e ser fiel demais. Falando assim, pode parecer conversa de louco: Afinal, se uma adaptação pode falhar tanto por seguir o livro no qual é baseada quanto por não segui-lo, então o que resta?

Mas esse, resumidamente, é o grande dilema das adaptações. Se uma adaptação tenta mudar o livro e dar algo novo às pessoas que o leram, é comum o filme chatear os fãs já existentes da obra, ao mesmo tempo em que deixa o público comum querendo tê-la lido ao invés de ir ao cinema.

Por outro lado, se pecar da forma oposta e for fiel demais à obra que tenta adaptar, ela corre o risco de ser apenas uma condensação do livro, mesmo que bem-feita. Afinal, é praticamente impossível transferir um trabalho literário em sua integridade para o formato cinema, e mesmo que fosse, os elementos que definem um bom romance – o estilo de escrita, a narração e os pensamentos internos dos personagens – não são necessariamente bons em um longa-metragem. Pense em um filme em que há uma constante narração sem que nada chamativo aconteça visualmente, e é possível ter uma ideia desse problema.

Quando o filme reconhece que não consegue adaptar a integridade do livro e mesmo assim tenta moldar-se demais em cima da obra original, porém, o resultado geralmente é o que pode bem ser chamado de “taquigrafia cinematográfica”: Uma abreviação da obra escrita original, feita apenas como uma forma de agilizar sua narrativa – em outras palavras, um filme inútil.

Ainda assim, às vezes acontecem casos de adaptações bem-sucedidas, que acertam todas as notas e agradam tanto a fãs quanto a novatos. Há uma fórmula mágica que elas seguem para tal? Bem, de certa forma. E o primeiro passo é não ser apenas um derivado do livro que pretende trazer à telona, mas fazer um diálogo com ele. É essa noção de diálogo que permite que livros como Frankenstein e Drácula tenham tantas adaptações, cada uma trazendo um novo olhar sobre a obra. Esse diálogo pode se dar inclusive entre adaptações, caso um cineasta veja algo no livro que considere que não foi abordado (ou bem abordado) em outros filmes baseados nele.

Com essa noção de diálogo bem colocada na mente, pode-se começar a escrever a adaptação. E mesmo que ela divirja do estilo do livro ou agilize as partes mais reflexivas que servem melhor ao formato literário do que ao cinematográfico, as boas adaptações sempre se mantém fieis aos elementos-chave narrativos que chamam a atenção no livro em primeiro lugar: Os personagens, a ambientação, o enredo, o conflito e a resolução.

Uma vez mantida intacta a narrativa central, porém, vem a parte mais difícil, que nem toda adaptação consegue fazer: Entregar algo que impressione tanto o público que já leu o livro quanto aquele que está indo apenas assistir a um filme. Para isso, o adaptador precisa ter bem em mente os elementos da história que funcionam e os que não funcionam na narrativa do livro. A partir daí, seu trabalho consistirá em mantém os que funcionam e melhorar os que não funcionam. Assim, cinéfilos não sentirão a necessidade de ter lido antes o livro, e leitores receberão algo melhor do que eram capazes de imaginar ao lerem a obra adaptada.

Terminado esse trabalho de adaptação, o resto do que define um bom filme adaptado é igual ao que define um bom filme original: Um bom diretor, bons atores e uma produção sem medo de correr riscos. Porém ainda pode parecer pretensioso (e um tanto utópico) querer que a história de uma adaptação seja melhor do que a da obra original. Mas em algumas situações especiais, acontece.

A título de exemplo, o livro Tubarão, de Peter Benchley, pode até ter atraído a atenção da mídia e sido um sucesso comercial quando foi lançado; porém é conhecido que Steven Spielberg escolheu eliminar diversos de seus subenredos na adaptação, com a intenção de tornar os personagens principais mais agradáveis e simplificar a narrativa – e, com isso, reforçar o que é considerado o melhor aspecto do livro, que é o suspense. São poucos aquele que consideram que ele fez a escolha errada.

Acima de tudo, uma boa adaptação exige talento. Mas talento sem noção do que está fazendo é talento perdido.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.