18
jun
2019
Crítica: “Amores Brutos”
Categorias: Críticas • Postado por: David Ehrlich

Amores Brutos (Amores Perros)

Alejandro González Iñárritu, 2000
Roteiro: Guillermo Arriaga
Nuvision

4.5

Há uma boa chance de você desistir de Amores Brutos (tradução bem vaga do espanhol Amores Perros) no meio do filme – se bobear, até mesmo nos primeiros dez minutos. É um filme difícil de assistir, especialmente se você for do tipo sensível a violência contra animais. E mesmo que não seja, dificilmente irá terminar a pipoca que planejou comer. Porque este não é o típico filme de amor latino-americano, cheio de cores e realismo mágico. É um filme feroz e áspero, que te empolga, horroriza, perturba, cativa, surpreende – e, ao final, te deixa completamente sem fôlego, como se tivesse levado um murro.

Primeiro filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu – na época com 37 anos -, Amores Brutos chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (feito por si só no mínimo notável para um longa-metragem de estreia), e embora tenha perdido para O Tigre e o Dragão, ainda assim teve um sucesso internacional considerável entre circuitos independentes, que garantiu não apenas ao filme um status cult, mas também a Iñárritu o começo de uma premiada carreira.

Logo na abertura o filme já dá um tapa na cara do espectador, oferecendo-lhe uma experiência intensa – intensidade essa que diminui apenas em raríssimos momentos dos seus 147 minutos de duração. Os primeiros dois minutos do filme são dedicados a uma eletrizante perseguição pelas ruas da Cidade do México. Um carro com um cachorro ferido no banco de trás atravessa desenfreadamente o trânsito; logo atrás, uma picape colorida o segue, o motorista de pistola na mão. A paleta de cores é terrosa, e a câmera nunca para no lugar, como se tentasse captar tudo ao mesmo tempo. De repente, uma batida: Metal retorcido, gritos, sirenes e muito sangue.

É esse “Big Bang” inicial que serve de centro ao redor do qual três histórias colidem e se entrelaçam, mostrando tanto as vidas de seus protagonistas antes do acidente quanto a forma como este as altera: O jovem Olavo (Gael García Bernal), apaixonado pela esposa de seus irmão e que busca uma forma de ganhar dinheiro para poder fugir com ela; a modelo Valeria (Goya Toledo), que vê sua carreira arruinada após se ferir na batida; e o assassino de aluguel El Chivo (Emilio Echevarría), que, embora já tenha sido um guerrilheiro revolucionário, atualmente vive como um sem-teto. Cada vez que uma nova história começa, o roteiro (escrito pelo romancista Guillermo Arriaga) retorna ao acidente, sob um novo ponto de vista.

Falando assim por cima, não dá para negar que o filme em muito lembra os de Quentin Tarantino, especialmente Cães de Aluguel e Pulp Fiction. E de fato, Amores Brutos foi lançado em uma época em que diversos filmes de crime de baixo orçamento tentavam beber dessa mesma influência, a maioria com qualidade inferior e pensando apenas em gerar um lucro rápido. Comparações entre o filme de Iñárritu e os de Tarantino honestamente não faltam: Uma história de almas perdidas em um mundo sombrio e estetizado de crime e violência, sangue e armas, com uma linha do tempo fraturada e bofetadas emocionais de sobra.

O que diferencia Amores Brutos de Pulp Fiction, porém, é a forma como descreve circunstâncias corriqueiras da vida com uma estética extremamente realista, ao mesmo tempo em que os insere dentro de uma temática que lhes dá um sentido transcendental. E é aí que o filme encontra sua visão artística e se torna algo maior, chegando inclusive a aproximar-se mais da obra de Krzysztof Kieślowski do que da de Tarantino.

Mas ao invés de mandamentos bíblicos ou as cores da bandeira francesa, a temática transcendental em Amores Brutos são os cachorros – que a literatura ocidental tradicionalmente associa a morte, desgraça e vergonha: Olavo descobre uma fonte de dinheiro fácil inscrevendo seu cachorro em rinhas clandestinas; o cachorro de Valeria desaparece por um buraco no chão de seu apartamento, fazendo-a questionar os rumos que seguiu; e El Chivo resgata o cachorro de Olavo do acidente, apenas para ver sua própria vida refletida no comportamento violento dele.

Cachorros e humanos não são muito diferentes no filme: Ambos têm a mesma voracidade e testosterona (que a estética visual do filme captura com maestria), e ambos estão suscetíveis não apenas à mesma violência, mas também ao mesmo amor – ou a falta dele -, que os marca por dentro do mesmo jeito que um acidente de carro marca suas vítimas por fora. E a câmera de Iñárritu retrata isso com um cinismo desconcertante, como se fosse uma máquina sem qualquer ser humano por trás, à qual toda essa violência física e emocional em nada a perturba. Mais do que a violência em si (que, sendo um filme, sabemos que é simulada), é provavelmente isso que mais choca o espectador.

E é exatamente esse o objetivo do filme: Agitar o espectador, fazer ele perceber que está vivo – mesmo que ao final não necessariamente se sinta agradecido por isso. Amores Brutos não é o tipo de filme que você se põe a assistir em uma madrugada de insônia; é um filme para ser assistido quando se está bem desperto, adrenalina correndo pelo sangue como se alguém estivesse apontando uma faca para você.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.