25
jul
2019
Crítica: “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

 Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile)

Joe Berlinger, 2019
Roteiro: Michael Werwie
Paris Filmes

4

Algumas semanas depois, as autoridades do Colorado acusam Ted de assassinar Caryn Campbell e ele é transferido para Aspen, Colorado, em 1977. Liz se recusa a acreditar que Ted é culpado, mas os eventos começam a prejudicá-la, e ela começa a beber regularmente . Enquanto no Tribunal do Condado de Pitkin, Ted decide servir como seu próprio advogado e, como tal, é dispensado de usar algemas. Durante um recesso, Ted escapa do tribunal saltando de uma janela do segundo andar e correndo para as montanhas, mas é recapturado depois de seis dias.

Liz visita Ted e termina seu relacionamento. Mais tarde, ele escapa novamente depois de serrar um quadrado no teto de sua cela. Duas mulheres em uma casa de irmandade são assassinadas na Flórida, seguidas de ataques violentos contra outras duas. Depois que Ted é preso, ele tenta entrar em contato com Liz, mas ela desliga nele. Ele começa a receber mulheres seguidoras fascinadas por ele, algumas até alegando que o amam. Ted é visitado por uma velha amiga, Carole Ann Boone (Kaya Scodelario), que acredita que ele é inocente e se muda para a Flórida para ficar mais perto dele.

O roteiro de Michael Werwie , baseado no livro The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy, escrito pela ex-namorada do psicopata, Elizabeth Kendall, ganhou o título original norte-americano de “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil, frase proferida em seu último julgamento. Em sua série documental para a Netflix, Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, o diretor Joe Berlinger (Unspeakable Crime: The Killing of Jessica Chambers) tem como ponto de partida uma série de testemunhos e entrevistas de pessoas ligadas a Bundy, oferecendo uma experiência muito mais imersiva e realista no psicológico do criminoso.

No longa-metragem, o cineasta propõe mudanças buscando entretenimento a partir de um roteiro sinuoso. E ainda que não seja tão imersivo quanto a realidade do documentário, um fator positivo que o diferencia é dar espaço para Elizabeth Kendall (Lily Collins) que assume o protagonismo da trama, desenvolvendo a narrativa a partir do seu ponto de vista. O que preocupa, no entanto, e o que torna um projeto problemático, é a romantização que apresenta em sua maior parte. Ainda que estejamos falando de um filme de serial killer ou um drama de tribunal, em grande parte a obra soa como um drama romântico.

A trama busca a perspectiva da garota, soando inocente muitas vezes, com suas inseguranças de uma mãe solteira na década de 70, que acaba se apaixonando e que tem sua vida transformada em um caos quando o rapaz é preso e passa a ser investigado pela série de crimes que cometeu. Ainda que a visão de Liz seja a base do filme, com o tempo a proposta vai se perdendo, transformando-se de uma análise de uma relação abusiva para um drama comum de tribunal.

Bundy era estudante de Direito, um sujeito inteligente, carismático e charmoso, algo que fez com que muitas mulheres da época acreditassem em sua inocência, acumulando uma legião de apoiadoras e fãs. Ele se sentia como uma celebridade, sustentando sua mentira até a véspera de ir para a cadeira elétrica, em 1989.

O problema é que sua tendência homicida, sua falta de sentimentos e crueldade não são exploradas pelo longa, o que torna a obra preocupante, especialmente para quem a assiste sem conhecer os fatos. Isso certamente fará com que muitos acabem se afeiçoando por Zac Efron em tela, o que é deveras perturbador. O ator, claro, foi uma ótima escalação, especialmente por sua semelhança física, mas a proposta incomoda.

Psicopatas, stalkers e homens obsessivos não deveriam ser romantizados ou apresentados cinematograficamente um tipo de homem para se apaixonar. Não se pode esquecer da brutalidade dos atos de um assassino. Justamente por isso, recomendo e acho necessário um estudo prévio da figura de Bundy antes de se assistir a produção para que se encare o personagem como o monstro que foi, algo que não foi retratado no longa.

O roteiro chega ao ponto de quase glamorizar o personagem ao tentar induzir o espectador a sentir pena de Bundy, fazendo-o se questionar se os crimes foram cometidos por ele ou não. Se a princípio poderia-se pensar que essa era justamente a intenção do diretor, emulando a sensação de muitos naquela época, quando lembramos que estamos falando de um criminoso condenado a morte por feminicidio, tema tão discutido atualmente, a teoria não se sustenta.

Ainda assim, há aspectos positivos na obra, começando por seu elenco. As mulheres que se envolverem com o serial killer, interpretadas por Lily Collins e Kaya Scodelario, alarmam o espectador para o perigo de um relacionamento abusivo e dependente influências tóxicas. Efron, por sua vez, mostra que não é apenas um rostinho bonito, entregando uma atuação madura, minuciosa, capturando os trejeitos de um dos criminosos mais conhecidos dos EUA.

Um de seus melhores momentos é no último enfrentamento entre Bundy e o juiz do tribunal, vivido por John Malkovich (Caixa de Pássaros). A cena mostra ambos em pé de igualdade, com a melancolia do primeiro não dando espaço para a piedade do segundo, que lamenta, pensando em como a sua trajetória poderia ter sido brilhante, mas não enxerga perdão para o caminho escolhido por ele.

Em um grau menor, ainda contamos com a presença de Jim Parsons, fazendo o promotor do ultimo julgamento de Ted. Seu personagem ainda possui um certo resquício de seu personagem mais famoso, o dr. Sheldon Cooper, da série Big Bang: A Teoria. Em alguns momentos ao se irritar, parece que estamos diante da personagem que consagrou a carreira de Parsons. Não que atrapalhe o entendimento da obra, mas acaba por tirar o foco do todo.

Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal ainda que possa ter sido proposital, acaba sendo desrespeitoso com tantas vítimas e com as mulheres em geral. O que infelizmente acaba provando que assuntos como feminicídio precisam ser discutidos cada vez mais. Se você esperava ver um filme mais apelativo para a violência, poderá se decepcionar, mas se a sua vibe é mais drama psicológico, pode ser interessante de ver.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.