28
ago
2019
Crítica: “Anna – o perigo tem nome”
Categorias: Críticas • Postado por: Hanon Arthur

Anna – o perigo tem nome (Anna)

Luc Besson, 2019
Roteiro: Luc Besson
Paris Filmes

4.0

Luc Besson é daqueles cineastas que sempre revisitam seus clichês. E isso não é uma crítica. Já que é incontável o número de cineastas que tentam se revisitar e falham grosseiramente. Vários nomes muito mais consagrados que Besson se encontram naquele limbo em que sua linguagem claramente se esgotou e esses realizadores não conseguem achar uma saída para essa situação. Não acho que seja o caso de Luc Besson.

Com uma lida bem rápida para a sinopse do filme Anna – o perigo tem nome, é inevitável não relacionar o enredo com vários outros clássicos do cineasta – Nikita, criada para matar, O quinto elemento ou Lucy (que não foi tão bem aceito pela crítica como os outros dois). Um filme de ação e até certo ponto ficção científica, em que uma protagonista feminina, extremamente sexualizada, passa por questões que só servem para endossar o cunho sexual da personagem. Esse aspectos estão presentes em menor ou maior grau em todos os filmes com essa temática de Luc Besson. Mas é curioso notar como o próprio gênero, com todos os seus problemas, é “corrigido” pelo diretor ao longo dos anos. Nikita e O quinto elemento, ambos da década de 90, estão recheados desses problemas. Já no filme Lucy, de 2014, vários desses elementos são “corrigidos” ou amenizados, dando uma cara nova a própria linguagem do cineasta.

Anna – o perigo tem nome vem nessa mesma toada. No filme, Besson explora o gênero de espionagem, que vem reconquistando mercado, especialmente depois do grande sucesso da série americana The Americans (2014-2018). Uma mulher escultural, que é bastante misteriosa e muito boa de luta e tiro. A cartilha do sex simbol feminino em filmes de ação é perfeitamente preenchida. Mas diferente dos clichês usuais, a personagem de Anna não gira em torno dos personagens masculinos da história. Seu corpo também não é constantemente sexualizado como outras obras do gênero. É até interessante notar como Luc Besson continua a explorar as questões íntimas da personagem, inclusive amorosas e como isso afeta no desenrolar do enredo, como ele faz magistralmente em Nikita. Esse é um dos ponto fortes das obras de Besson, especialmente no filme de 1990, que é a sua obra mais completa e aclamada. A profundidade do personagem, inclusive, é um dos pontos mais baixos segundo a crítica especializada do filme Lucy. Besson melhora nesse aspecto em Anna – o perigo tem nome, criando uma personagem profunda, sem apelar para clichês óbvios relacionados a personagens femininos.

Outro aspecto a se salientar é a estética bastante chamativa do filme. Não é uma surpresa para quem acompanha a cinematografia de Luc Besson. As obras antes citadas, por exemplo, exploram bastante a estética Neon Noir, o que é bem curioso se tratando de um filme de espionagem. Essa talvez seja a assinatura mais legítima do cineasta. Pois filmes anteriores já exploraram a estética em filmes policiais e de suspense – especialmente o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (Drive e Demônio de neon). Mas explorar essa temática em um filme de espionagem prova o quão pioneiro é Luc Besson, já que o Neon Noir se encaixa tão bem na estética proposta pelo diretor.

O cineasta francês não é um cânone do cinema. Muito porque, desde que surgiu para o mercado, a mais ou menos trinta anos, outros grandes nomes do cinema surgiram com propostas bastante inovadoras e pioneiras na sétima arte. Mas muito desse ostracismo se deve ao fato de Luc Besson explorar tanto o cinema de gênero. Essa categoria ainda é bastante marginalizada pela crítica especializada, por estar tão atrelada ao cinema clássico, momento em que, segundo essa crítica, a questão financeira se sobressaía a questão artística. Mas essa é a história do cinema mundial. A questão financeira e artística sempre vão ser um debate acalorado. Não cabe a esse artigo discutir isso. O ponto é que Luc Besson prova que o cinema de gênero também tem seu valor artístico, seja em filmes de terror, como a onda do Neo Terror (Corra e Hereditário), que vem ganhando bastante espaço na crítica especializada, ou os novos filmes de ficção cienífica (Ex Machina e O Lagosta). Os filmes de ação também vêm ganhando esse espaço, talvez desde o lançamento da saga de John Wick em 2014 e o filme Anna – o perigo tem nome tem grande potencial para alavancar o gênero.



Sou bacharel em História pela Universidade de São Paulo e atualmente curso Cinema na Faculdade de Artes do Paraná. Tenho 23 anos. Essas informações não significam nada, só estou aqui por ser amigo do Matheus Benjamim. Meus gostos são bem voláteis, mas atualmente meus diretores favoritos são Orson Welles, Paul Thomas Anderson e Yorgos Lanthimos. As vezes eu fico meio rabugento quando escrevo, então peço que relevem.