16
ago
2019
Crítica: “Era uma Vez Em… Hollywood”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Era Uma Vez Em… Hollywood (Once Upon A Time in… Hollywood)

Quentin Tarantino, 2019
Roteiro: Quentin Tarantino
Sony Pictures

5

Tarantino. Um dos diretores mais consagrados dos últimos consegue transformar tramas que, inicialmente, parecem pouco inspiradas em verdadeiras obras de arte, fazendo todos pagarem a língua ao mostrar um resultado instigante, divertido e muito prolífico.

Mesmo tendo apenas 8 filmes no currículo, o cineasta mostra que quantidade é algo completamente subjetivo. Eis que seu novo projeto, que agora está nas mãos da Sony, visto que, até então, todos seus antigos trabalhos estavam sob a batuta da empresa Weinstein Company, que virou pivô central de um escândalo sexual, envolvendo o chefão da companhia que desencadeou o maior movimento contra assédio sexual na história da indústria cinematográfica atual, contaria a história de uma estrela de grande renome no final da década de 60, quase início da década de 70. Será que deu certo?

Rick Dalton (Leonardo diCaprio) foi um grande nome das séries de faroeste na TV. Foi astro de uma série chamada de Lei da Recompensa. Junto dele, o sempre presente dublê/amigo/faz tudo Cliff Booth (Brad Pitt). Booth tem um passado que é mal fadado por todos: matou sua própria mulher num barco.

Os dois se encontram com Marvin Schwarz (Al Pacino) que diz que tem planos novos para Dalton: ser um vilão no novo seriado de Sam Wanamaker () Lancer e, se tiver sucesso, fazer faroeste espaguete.

Dalton diz que este é o fundo do poço da sua carreira. Eis que voltando para casa, Dalton e Cliff encontram Sharon Tate (Margot Robbie) e Roman Polanski (Rafal Zawierucha). Após isso, os dois seguem para uma festa na Mansão Playboy, onde encontram Jay Seybring (Emile Hirsch). Os três voltam para casa. Algum tempo depois, um jovem estranho (Damon Herriman) chega até a casa pergunta sobre o paradeiro de Terry Melcher, porém Seybring diz que a casa é dos Tate/Polanski agora e o manda longe.

Esse filme tem como principal cenário temporal de inspiração a ascensão da família terrorista criada por Charles Manson, que não apenas assassinou Tate, como também orquestrou uma série de crimes que seriam noticiados à exaustão nos anos que se seguiram. Porém, faço um alerta em forma de spoiler aos mais afoitos: não esperem ver os crimes cometidos pela família ou mesmo o assassinato da esposa de Polanski. Como dito anteriormente, é inspiração, não transposição dos fatos ocorridos, como um Linha Direta.

A fotografia é um dos destaques mais incríveis. Muitos podem se incomodar com o aspecto granulado da imagem, porém Tarantino não quer que este seja só mais um filme onde o espectador seja passivo e só veja a história se desenrolar aos poucos. Ele quer que você participe e mergulhe de cabeça nessa reconstituição de época e aprecie como as coisas aconteciam á 50 anos atrás. As cores da paleta são vibrantes, algo intrínseco à época.

A direção do diretor já tem sua grande marca registrada. Evidentemente que aqui, não seria diferente. Vemos o diretor usar uma trilha sonora escolhida a dedo que se encaixa como uma luva, cenas de ação com sangue espirrando com gosto, milhares de referências possíveis ao cinema, visto que o diretor é uma enciclopédia ambulante, com uma gama de referências e indo da mais desconhecida até a mais popular, um tanto de verborragia e entre outros aspectos que circundam o estilo narrativo da carreira do diretor.

As referências são inúmeras. Desde os faroestes espaguete de grandes nomes como Sérgio Leoni, Antonio Margheritti, passando por programas de TV como Besouro Verde até evidentemente homenagear de forma indireta Roman Polanski. Além disso, vemos a presença de vários atores interpretando versões de alguns dos maiores astros e estrelas do cinema e TV da época. Porém, o que mais pode incomodar é Bruce Lee (Mike Moh). A cena onde o lutador aparece é um tanto controversa e já causou polêmica recentemente na internet sobre.

A trilha sonora é impactante. As faixas mais conhecidas é Mrs. Robinson, da dupla Simon & Garfunkel (Hello darkness, my old friend…), que foi composta originalmente para o filme A Primeira Noite de um Homem; California Dreamin’ da banda The Mamas and The Papas, gravado aqui por José Feliciano e covers de Hush e Kentucky Woman pela banda Deep Purple.

As atuações são incríveis. DiCaprio faz Rick, um homem cuja carreira já não possui a mesma vivacidade e luta para continuar relevante. Pitt faz o amigo que tenta ajudar e acaba se metendo com uma galera nem um pouco pacífica e muito suspeita. Margot Robbie vive Tate. Mesmo não possuindo momentos inacreditáveis com sua atuação, sua aura leve é o que carrega o filme.

Emile Hirsch é o amigo querido de Tate. Porém, não possui momentos dignos e pouco mostra em tela. Mike Moh faz uma ponta como Bruce Lee, porém é capaz de deixar um gosto amargo aos fãs do grande mestre das artes marciais.

Margaret Qualley vive uma das seguidoras do culto de Manson. Inicialmente espevitada, a moça mostra que não é flor que se cheire se ousar sair da linha e desafiar o culto. Damon Herriman pouco mostra como o maníaco Manson, mas mesmo assim vê se que é um sujeito que você não queria encontrar numa rua escura.

Era uma Vez em… Hollywood é uma singela homenagem do diretor a uma época onde a inocência ainda existia e as coisas não afligiam tanto o povo norte-americano. Mesmo que não vejamos os eventos que fizeram o ano ser marcante, ainda assim é uma reconstrução fiel de um tempo mais fácil, mais politicamente incorreto e onde a esperança ainda estava presente. Claro que com várias doses do estilo de contar do cineasta, mas ainda assim prende a atenção e é altamente indicado que aqueles que viveram essa época façam uma revisita.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.