08
ago
2019
Crítica: “Rainhas do Crime”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Rainhas do Crime (The Kitchen)

Andrea Berloff, 2019
Roteiro: Andrea Berloff
Warner Bros. Pictures

4

O bairro Hell’s Kitchen nunca foi o bairro mais tranquilo do mundo. O Demolidor que não me deixa mentir. Assim como outras produções dos anos 70, mostrando a cidade de Nova York num epicentro de uma catástrofe prestes a eclodir, destruindo toda a vida existente da Grande Maçã.

Tanto que a editora Vertigo usou isso numa de suas obras mais recentes e nós, meros espectadores, fomos tomados de assalto (perdão pelo trocadilho, vou ali ser sequestrado e já volto) pela mesma receber uma versão cinematográfica.

Estamos em 1972. Acompanhamos a vida de 3 casais que vivem no bairro do Demônio da Cozinha do Inferno: Kathy Brennan (Melissa McCarthy) e Jimmy Brennan (Brian d’Arcy James); Ruby O’Carroll (Tiffany Hadish) e Kevin O’Carroll (James Badge Dale) e Claire Walsh (Elizabeth Moss) e Rob Walsh (Jeremy Bobb). Um dia, os maridos acabam sendo emboscados por dois agentes do FBI.

Os três são sentenciados a 3 anos de cadeia. E com o dinheiro que as esposas recebem é escasso, elas decidem que irão assumir os negócios, fazendo o que o homens não faziam.

Quem comanda a produção é Andrea Berloff, mais conhecida por seus ótimos trabalhos como roteirista em filmes como Straight Outta Compton – A História do NWA, estreando na direção.

A recriação de cenários e a ambientação de forma minuciosa, dá frescor ao bairro nova yorkino conhecido como “Hell´s Kitchen” Sua época de efervescência máxima foi nos anos 1970, onde diversas produções de baixo orçamento exploravam a criminalidade local, e onde a trama cujo título original é justamente The Kitchen, tinha por obrigação se centrar. E ponto a favor, já que o local pulsa com tanta vida que nos transporta imediatamente no tempo, se tornando o personagem mais cativante do longa.

O filme traz Melissa McCarthy em seu primeiro trabalho pós-indicação ao Oscar por Poderia me Perdoar? no início deste ano. A atriz interpreta Kathy, uma das três donas de casa, esposas de criminosos, que veem seus maridos irem em cana. Aproveitando a oportunidade e o descanso dos abusivos cônjuges, elas usam a brecha e tudo o que aprenderam para superá-los e irem mais além, clamando para si a posição de líderes da máfia local. Eu nunca fui muito fã dos trabalhos de comédia da atriz, porém aqui sua atuação é magnética e sua dor é muito palpável.

Quem se destaca mesmo é Tiffany Haddish, humorista sensação que no papel de Ruby tem a chance de demonstrar parte de seu alcance dramático em uma performance visceral, mas que não dispensa boas gags e tiradas cômicas. Sua paixão exala das telas e serve como principal bússola para o público se envolver com esta história. Completando o trio protagonista, Elisabeth Moss vive a sofredora Claire, o saco de pancadas que dá a volta por cima e pega as rédeas de sua vida de volta – ela é a que possui o arco mais interessante, urgente e repleto de reviravoltas. Seu papel tem várias semelhanças com o que é visto na série The Handmaid’s Tale, porém sem a mesma carga de opressão e submissão da primeira.

A trilha sonora é magnética. As trilhas instrumentais fazem com que o bairro fique vivo e dão todo o ar da graça da época retratada. Há algumas faixas relativamente conhecidas, como The Chain, da banda Fleetwood Mac, que ficou conhecida em duas produções recentes: Guardiões da Galáxia, vol. 2 e O Sétimo Guardião; Barracuda da banda Heart; Carry On Wayward Son, da banda Kansas e It’s a Man’s Man’s Man’s World, de Etta James.

Rainhas do Crime até possui momentos enérgicos, com bons diálogos – em especial no que diz respeito à tensão de confrontos -, e uma boa premissa. Seu calcanhar de Aquiles, porém, é o fato de nunca conseguir se livrar da estigma de uma HQ, onde as situações ocorrem rápido demais, sem o tempo necessário para o desenvolvimento. Como resultado, termina com aquela típica narrativa de vídeo clipe, na qual não temos espaço suficiente para assimilar a gravidade de algo que acabou de ocorrer porque o corte já nos levou para outra cena. Trechos soltos funcionam em quadrinhos, os quais podemos contemplar durante quanto tempo quisermos. O ajuste é essencial entre mídias, e aqui parece que tal adequação não foi respeitada.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.