26
set
2019
Crítica: “Hebe: A Estrela do Brasil”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Hebe: A Estrela do Brasil

Maurício Farias, 2019
Roteiro: Carolina Kotscho
Warner Bros. Pictures

4.5

Hebe Camargo é uma das apresentadoras mais conhecidas do Brasil. Fez história ao longo de uma carreira que durou quase a vida toda, já que tinha apenas 26 anos quando começou a comandar seu primeiro programa de TV. Com um timing certeiro, sua cinebiografia Hebe: A Estrela do Brasil – dirigida por Maurício Farias centra a narrativa em um período curto da vida da artista, destacando a sua batalha contínua contra a censura dos anos 80, período de redemocratização brasileira.

Antes de seguir com a crítica, darei um spoiler, porém é para situar aos que ansejam em saber tudo da vida dessa grande artista: lamento informar, porém não esperem ver uma história cronológica contando a vida de Hebe. O recorte a ser feito da época onde o filme se passa, foi no ano em que a modelo transexual Roberta Close foi entrevistada pela loira. Se hoje já choca a plateias mais conservadoras a presença e, até mesmo, a elevação desses ícones a status sociais elevados, imaginem isso nos anos 80,

Se atualmente alguns filmes com temáticas LGBTQI+ estão tendo seus orçamentos cortados pela ANCINE (Agência Nacional do Cinema), na época de Hebe seu programa era constantemente ameaçado, seja por empresários da própria emissora ou por agentes do governo. O motivo? A apresentadora entrevistava em horário nobre travestis, transsexuais e gays, além de criticar de forma aberta a corrupção de políticos (quem dera essa fosse uma realidade que tivesse ficado nos anos 80).

Para além da questão da censura, outros temas relevantes também são abordados como, por exemplo, relacionamentos abusivos e a visão preconceituosa e tradicionalista da sociedade brasileira. Aliás, o filme acerta em alternar situações da vida pessoal de Hebe com sua trajetória profissional. Ao mesmo tempo em que vemos a sua transição da Rede Bandeirantes para o SBT, também acompanhamos a sua vida familiar, na companhia do marido ciumento e do filho adolescente. Detalhes que trazem humanidade à personalidade.

Aqui nossa protagonista é vivida brilhantemente por Andrea Beltrão . A atriz personifica Hebe Camargo, trazendo para a sua atuação pequenos detalhes e maneirismos da apresentadora, auxiliada pelo ótimo trabalho de figurino e maquiagem, afinal, para além do seu carisma e presença de palco, a apresentadora também era conhecida por seu estilo exuberante e único. Aliás, o uso de joias originais de Hebe se tornou um curioso acontecimento durante as filmagens, já que os colares e brincos caríssimos não tinham seguro.

Além da figura singular da apresentadora, o filme ainda apresenta outros ícones da televisão brasileira como Dercy Gonçalves (Stella Miranda) e Chacrinha (Otávio Augusto).

Outro que se mostra competente é Marco Ricca. Na pele de Lélio Ravagnani, segundo marido da loira, o mesmo se mostra possessivo, imaturo, inconsequente, ciumento e capaz de tudo para defender sua “propriedade”. Assim como disse em Bingo – O Rei das Manhãs, eu não me surpreendia com vários atores brasileiros e achava todos fracos e sempre interpretando os mesmos papeis. Marco Ricca e Andrea Beltrão me fizeram pagar a língua. A química e as tensões pelas quais o casal passará são angustiantes. tensas e extremamente aflitivas.

Porém, se por um lado, a produção acerta no quesito retratação de certas personalidades, por outro, presta um desserviço completo, já que as presenças de Silvio Santos (Daniel Boaventura) e do cantor Roberto Carlos (Felipe Rocha), por exemplo, beiram o caricato. Boaventura nem parece que algum dia assistiu um único programa do dono do SBT visto que não apenas não apresenta nem sequer qualquer tipo de similaridade, seja no gestual ou no comportamental.

Rocha tem o mesmo problema. Além de soar falso seu modo de falar, por vezes, parece que sua maquiagem foi carregada demais e sua similaridade com o cantor parece algo até mais infame que as paródias do grupo Casseta e Planeta.

Apesar da narrativa como um todo não ser inovadora e, muitas vezes, confundir o público quanto a sua linha do tempo, a atuação de Andrea Beltrão garante a qualidade e o entretenimento.

Hebe: A Estrela do Brasil é o tipo de filme capaz de agradar tanto os fãs da apresentadora quanto a nova geração, que talvez não lembre, ou não saiba, das façanhas e dos segredos dessa grande artista brasileira.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.