03
out
2019
Crítica: “Coringa”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Coringa (Joker)

Todd Phillips, 2019
Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver
Warner Bros. Pictures

5

Coringa. O príncipe palhaço do crime de Gotham City já teve sua cota de bons interpretes, grandes arcos nos quadrinhos. Esse vilão tão icônico compete em igualdade com outros psicopatas como Hannibal Lecter, Norman Bates. entre tantos outros. Porém, nem todas as versões do personagem conseguiram agradar a gregos e troianos (vide Cesar Romero na série Batman e Jared Leto, que até a data, foi o mais odiado intérprete do palhaço).

Quando foi anunciado que, dentre as próximas produções do universo DC estariam um filme do Shazam e um do Coringa, todos ficaram imaginando que poderia dar ou muito errado ou muito certo. Quanto ao Shazam, o filme teve seu relativo sucesso comercial. Agora, com esse filme, todos apostam em indicações as principais premiações. Será que a DC não necessitará fazer lobby? (sim, falo de você, Esquadrão Suicida)

Estamos nos anos 70. Arthur Fleck é um homem de meia idade que vive com a mãe num apartamento ruim. Ele quer ser uma estrela da comédia, mas acaba fazendo bico de palhaço. Um dia, é roubado e espancado sem dó e começa a receber ameaças de seu chefe. Um dia, encontra uma mulher que acaba lhe fascinando. Sua mãe pergunta se não havia chegado alguma carta de Thomas Wayne.

Os dois assistem a um programa de Franklin Murray e Arthur tem ilusões de estar no programa. Arthur titubeia em aceitar de um colega uma arma. Ele dança sozinho na sala. até acidentalmente atirar. Ele faz o bico de palhaço em um hospital, nas deixa sua arma cair e logo assusta a todos. Ele é demitido. Ao voltar pra casa, ele vê três executivos enchendo a paciência de uma mulher e logo, os homens partem pra cima dele. Arthur mata os três e a partir daí, mudanças acontecerão.

O roteiro é irrepreensível. Tudo é bem cadenciado, as falas são incríveis e muitas frases já se tornarão memoráveis. O filme não oferece soluções fáceis. Devido a instabilidade e imprevisibilidade de Arthur Fleck, nunca se sabe qual será o próximo passo de Fleck. É possível fazer associações com a HQ A Piada Mortal, visto que lá, o próprio palhaço usa-se do artificio: “o ser humano está a um dia muito ruim de ficar insano.”. Aqui, isso é usado como força motriz, mas não esperem nada muito fiel ao quadrinho. Esta é uma origem totalmente inédita e inigualável. Há um dado momento ao fim, que presta uma certa homenagem a contraparte do palhaço, mas, sinceramente. se não houvesse, teria sido igualmente satisfatório ou até mais.

A direção é magnânima. Todd Philips, antes um diretor focado em comedias, se aventura em fazer um drama psicológico digno de aplausos. Quem não tinha a menor fé no diretor, visto que o mesmo foi o criador de Se Beber, Não Case, aqui tenha certeza, não existe veia cômica pastelão. Isso ficou no passado. O único tipo de humor que encontrará é negro e muito pesado. A câmera passeia como se fosse fluida pelo personagem. Vemos que a coisa é séria quando o diretor se aventura em planos longos e contemplativos, a fim de nos manter imersos naquela atmosfera.

A direção de arte é impecável. Algo de ser dar pontos é a recriação do ambiente sujo, similar ao que acontecia em cidades como Nova York naquela época. Tudo está cheio de pichações, lixo, lojas fechando, um cenário desolador (nada muito diferente do que é visto hoje em dia no Brasil).

A direção de fotografia é esplendorosa. A correção de cor dá um aspecto que de que o filme foi mesmo produzido nos anos 70. Seja usando um filtro mais amarelado para as cenas diurnas e um verde quase azul nas noturnas, tudo é muito bem feito.

A trilha sonora é inacreditável. Tanto as faixas orquestrais como as conhecidas são bem encaixadas. Entre as conhecidas, Smile, do filme Tempos Modernos; Send in the Clowns e That’s Life, de Frank Sinatra.

As atuações são dignas de notas. Joaquin Phoenix já g=havia surprrendido em Ela, Gladiador, Johnny e June. Aqui, vemos que o mesmo sabe como fazer uma aula de atuação. O mesmo emagreceu um bocado para ficar com uma aparência quase cadavérica. Seu corpo se contorce de muitas maneiras, parece feito de plástico, mas sempre dando a ilusão de que pode ser quebrado com facilidade. Diferente de todos os outros Coringas, seu personagem é uma versão mais realista, onde uma pessoa aceita passar todo o tipo de situações que até mesmo o mais são entraria em parafuso de tanto aguentar situações extremas.

Robert DeNiro mostra que ainda está inoxidável. Mesmo tendo decidido participar de produções de gosto duvidoso, ainda consegue ter sua cota de bons papeis. Franklin Murray é um apresentador que, inicialmente, parece ser a redenção de Arthur, mas logo vemos que o apresentador não é tão bem intencionado assim. Zazie Beetz se mostra como o interesse romântico de Fleck, mas só direi que nada é o que parece ser.

Frances Conroy mostra ser tão ou mais problemática que o seu filho. Sua fixação em Thomas Wayne não parece condizer com verdade, mas o filme irá nos mostrar coisas um tanto peculiares sobre as atitude de Penny. Brett Cullen é Thomas Wayne, sim, o pai de Bruce e marido de Marthaaaa (ei, essa piada já é de domínio publico). Seu personagem é tido como o raio de sol da esperança de uma cidade decadente, mas também terá sua parcela de coisas descobertas.

Coringa não é um filme para todos. Mesmo se você for o fã mais fiel de filme de quadrinhos, a pegada é mais brutal. Houve uma certa acusação de que o filme alimentaria os desejos psicóticos de muitas pessoas impressionáveis, porém rebato que. mesmo depois de ter jogado Banco Imobiliário várias vezes, não sou a pessoa mais indicada para falar de administrar finanças. Se tem curiosidade para ver a produção, recomendo a assistir Taxi Driver e O Rei da Comédia só para você entender com o que você estará lidando.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.