18
out
2019
“Fragmentos do Horror” e 3 vezes em que Junji Ito nos assustou profundamente!
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

Fragmentos do Horror

Junji Ito
Darkside Books, 247 páginas
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4

Fazer releituras de quadrinhos sempre me deixam ainda mais animado com o produto lido em questão, com Fragmentos do Horror (que reli para escrever esse texto aqui) não foi diferente. E tudo o que eu preciso dizer é que mais uma vez me diverti bastante lendo essa obra, sobretudo porque Junji Ito é um mestre em roteiro e em desenho e sabe como atrair e também assustar seus leitores. Conheço esse mangaká desde quando era bem jovem; ao ler Uzumaki, tudo o que eu conhecia de mangá caiu por terra e eu pude encontrar um outro universo, ainda mais vasto e rico que o que eu já tinha noção. Essa coletânea em específico traz 8 espécies de contos de horror muito bem orquestrados e desenhados (ok, nem todas as histórias são incríveis assim, mas falo que o livro é muito bom de uma forma geral).

Quem já assistiu ao filme Relatos Selvagens, de 2014 dirigido por Damián Szifron sabe que as histórias que encontramos por lá são repletas de um ritmo frenético, sede de vingança e um toque de humor negro no fundo, né? Nesse caso, posso associar livremente a primeira história de Fragmentos do Horror, intitulada de Futon com o prólogo do longa acima citado. Tudo porque trata-se de uma história extremamente bem construída em pouquíssimas páginas. Em seguida, somos apresentados ao Monstro de Madeira, uma trama com alguns ares de macabro desde o princípio. Uma mulher se apresenta como estudante de arquitetura em uma casa familiar tombada pelo patrimônio histórico do Japão. Ela é alta, bonita, classuda e parece ser bem inteligente. A princípio parece também ser um perigo e o desenrolar da narrativa nos mostra um surrealismo delicioso de se acompanhar.

Em Tomio, ou Gola Rulê Vermelha, parece que o autor nos remonta à primeira trama, já que os personagens possuem os mesmos nomes. Essa história é bastante angustiante e alguns leitores, além de causar aflição pode também acarretar em vontade de vomitar ou tontura, principalmente se for lida em um carro ou ônibus em movimento (o que aconteceu comigo). Essa história está estampada na capa e contracapa e também nas folhas de guarda da edição. Inclusive, há alguns lances bastante peculiares de semiótica na capa, como o peixe decapitado. Essa capa também traz referências à história do pássaro negro que retomarei mais à frente e é claro, à icônica obra de Edvard Munch O Grito. Os olhos extremamente horripilantes que estão por toda a ponte de madeira também fazem uma referência direta à segunda história.

Os contos Suave Adeus e A Mulher que Sussurra colocam uma espécie de suspense à tona, com dramas muito gostosos de se acompanhar, mas sem grandes ares de medo. O traço nessas duas narrativas são bastante delicados. Já em Dissecação-chan, que considero também uma das melhores histórias, temos o ápice da loucura e do realismo fantástico com diversos flashbacks e um simples flashforwards. Para Pássaro Negro, Ito, assim como em Dissecação-chan, traz ares de realismo fantástico e brinca mais fortemente com o elemento do tempo. A figura desse pássaro e um certo plot twist que a trama apresenta são bastante peculiares e chocam o seu leitor. A história que menos me agradou foi a de Magami Nanakuse que traz, de certa forma, um desfecho apressado, embora tenha personagens muito bem construídos. A trama trata de obsessão, tanto da protagonista para a escritora (que dá título ao conto), quanto da escritora por descobrir novos tiques para seus livros.

Um dos principais méritos deste mangaká, além de construir boas narrativas e entrelaçar seus personagens, é de preencher pelo menos uma página inteira (ou até mesmo duas) com o que há de mais perturbador em cada uma das histórias. Outra coisa bastante notável é que há uma espécie de pequeno epílogo, bastante inteligente por sinal, em cada história, para encerrá-la de uma forma bastante amarrada. Alguns desses epílogos são maiores e mais descritivos, outros terminam com apenas uma frase ou quadrinho.

Para finalizar, é válido ressaltar que edição da Darkside Books ajuda muito no fascínio para com a obra, principalmente porque a edição em capa dura traz a história da gola rosê em foco, assim como já havia mencionado anteriormente. Além do verniz localizado que contra a luz nos revela diversas outras referências diretas das histórias, as páginas em preto para introduzir os contos e a tipografia escolhida para ler o epílogo oficial da coletânea escrita pelo autor facilitam e deixam a leitura mais confortável. A folha de rosto, se olhada por mais de trinta segundos, causa certo desconforto e podem até deixar nosso cérebro confuso. Sem dúvidas, essa coletânea é a cara dessa editora que traz sempre diversas histórias de horror, mistério e morte para os leitores. Vale a pena conferir!

Como já havia lido outras obras do autor, resolvi também mencionar três outras vezes que Junji Ito assustou seus leitores. Em primeiro lugar, preciso mencionar Gyo, uma história eletrizante e por hora bastante peculiar e bizarra sobre obsessão e peixes fedidos. Um casal que está explorando a região de Okinawa acaba sendo surpreendido pelo sobrenatural de peixes com “cheiro de morte”. A trama avança e a obsessão pelo cheiro horroroso dos peixes causa repulsa à protagonista que quer a todo custo se livrar dele. O mais incrível nessa história, que abusa de expressões faciais, é também a forma como Ito avança a narrativa, pretendo o leitor a cada segundo.

Em segundo lugar, vamos falar sobre Tomie. A personagem título é uma colegial perversa que utiliza um poder de sedução extremamente perspicaz para atrair suas vítimas, que em sua maioria são homens. Tomie é uma personagem bastante doentia e tem o controle de suas ações em suas mãos, brincando com a psicologia de quem quer, conseguindo arrancar medo nos leitores pela sua manipulação e loucura.

E por último, mas não menos importante, talvez sua obra prima seja Uzumaki, a Espiral do Terror. Esse mangá, dividido em pouco mais de 17 capítulos conta a história de uma cidade que é assombrada pela forma do espiral. A protagonista, uma adolescente comum, vê seus pais enlouquecendo por conta da espiral, seus conhecidos e todos os que na cidade vivem. Alguns ficam obcecados com a forma do espiral, outros querem distância e assim, nessa trama de loucuras que o medo vai se instaurando. Existe um filme bastante peculiar baseado no mangá que foi lançado no Japão no início dos anos 2000, mas eu sinceramente não recomendo. Leiam o mangá que é mais interessante.

Espero que tenham se assustado e até mais!



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bergman. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.