19
nov
2019
É possível falar de uma estética queer no cinema? Uma reflexão a partir de “As Filhas do Fogo” – “primeiro pornô feminista”
Categorias: Artigos • Postado por: Rayane Taguti

A intimidade e o universo privado ganharam destaque nas representações audiovisuais, sobretudo após a II Guerra Mundial. Os cinemas mais hegemônicos, como Hollywood, e os cinemas autorais europeus, privilegiaram o sujeito, seu desejo e sua intimidade em diversos filmes. Porém, a intimidade está presente no cinema desde o começo. Já no final do século XIX podia-se experenciar, com o cinetoscópio de Thomas Edison e William Kennedy Laurie Dickson, uma posição voyeurista, não só pela privacidade exigida do espectador para a exibição dos filmes, como também pelo apelo particular que esses filmes costumavam trazer.

É dentro dessa atmosfera experimental que surge o que alguns estudiosos, como Vito Russo (The Celluloid Closet, 1981) consideram um dos primeiros exemplos de imagens de pessoas do mesmo sexo no cinema: The Dickson Experimental Sound Film (1894), de William Kennedy Dickson. O filme de 17 segundos apresenta Dickson tocando um violino enquanto dois homens dançam a sua frente. O filme não necessariamente mostra dois homens gays dançando (podem facilmente ser apenas dois amigos), mas o público LGBTQIA+, acostumado com migalhas de representação, faz um resgate histórico também com essa interpretação.

Durante os anos seguintes, o cinema não foi um lugar de minorias. Nos anos 1930, com o Código Hays[1], a comunidade LGBTQIA+ – quando contornava os censores e aparecia nas telas – era retratada muitas vezes como um ser pecaminoso e potencialmente perigoso. A relação entre homossexualidade e pedofilia também era constante e as associações psiquiátricas não faziam muito esforço para mudar a situação. Reforça-se, nessa época, estereótipos do gay sissy[2], da mulher butch[3], da lésbica vampira, entre outros.

A partir dos anos 1960 o Código Hays se ameniza na intenção de acompanhar a cultura vigente e permite que a homossexualidade seja retratada, tomados os devidos cuidados. Cada vez mais os gays e as lésbicas saiam do armário na tentativa política e legal de mudar o seu status nos Estados Unidos, principalmente. As décadas de 1960 e 1970 são fortemente marcadas por movimentos sociais e é nesse contexto que as críticas às representações estereotipadas, principalmente da mulher e do LGBTQIA+, se intensificam. É aqui também que o cinema experimental tem um papel fundamental. Nas palavras de Denilson Lopes:

[…] é nesse momento que emergem categorias como olhar feminino e homotextualidade. […] o interesse pelo espectador iria realizar uma primeira desconstrução do paradigma hollywoodiano do olhar masculino/objeto feminino. […] Esse processo […] abre a porta para uma desconstrução do cinema comercial por cineastas como Chantal Akerman em sua extensa obra […] (2006, p. 383).

Apesar de gays, lésbicas, transexuais, queers no geral conquistarem esse pequeno espaço, ainda havia o sentimento de estarem renegados às sombras até os anos 1990. Não à toa, visto que poucos produtores tiveram a coragem de exibir pessoas LGBTQIA+ como personagens principais, entre eles: Making Love (1982), Victor/Victoria (1982), Tootsie (1982) e Desert Hearts (1985).

Nos anos 1990 a discussão sobre a homossexualidade e transexualidade ganha força em outras áreas, acadêmicas inclusive. Em seu livro Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (1990), Judith Butler começa a questionar a noção de “mulheres” como sujeito do feminismo, além de desconstruir todo o conceito de gênero e sexo, tornando-se uma das principais teóricas da questão queer. A partir daqui o movimento também ganha muita força no cinema, desenrolando-se no New Queer Cinema, movimento mais político e que incorpora questões de classe, etnia e condição periférica.

O cinema queer vem ao mundo criar novas narrativas, para além da norma do patriarcado branco-hétero-cis vigente desde o surgimento da sétima arte. Mostram-se diferentes formas de afeto, prazer e também se permeia a ideia de novos estilos cinematográficos. Poderia a narrativa e forma clássica do cinema suprir a necessidade de como se falar sobre assuntos que vivem sempre à margem de outras discussões? Mais que isso, nós, estranhos, esperamos ocupar o cinema clássico? Pretendemos reformulá-lo? Queremos/podemos ter um cinema 100% nosso?

Em primeiro lugar, não podemos considerar queer estritamente nos termos de sexualidade. Aqui também se discute questões de raça, a questão da mulher, questões sociais, questões políticas contemporâneas. Podemos, a partir disso, dizer que Albertina Carri vai além do patriarcado e trespassa o olhar masculino ao produzir As Filhas do Fogo (2019), um filme que se diz ser o primeiro pornô feminista lançado nos cinemas?  

Um dos poucos méritos do filme é a representação de corpos dissidentes, e é também a principal questão do road movie de Carri. Há mulheres magras, gordas, altas, baixas, com pelo, sem pelo, carecas, que performam feminilidade e que performam masculinidade. Porém, curiosamente, não há corpos negros ou transexuais na mesma proporção. Agora a questão da liberdade sexual, tema de grande interesse do cinema queer, e também de enorme discussão por entre os lugares que As Filhas do Fogo passou (BAFICI, San Sebastian, Festival do Rio, Mix Festival, entre outros) é algo controverso no filme. Em algumas entrevistas, a própria diretora diz que recebeu comentários, principalmente de homens, dizendo que foi muito didático e eles aprenderam coisas que não sabiam antes. Aqui reside um enorme problema porque o que foi ensinado não é, de fato, o que acontece na realidade. Albertina Carri também comentou que em alguns momentos se sentia filmando uma ficção e em outras um documentário, e essa linha tênue entre ambos não é um bom lugar para a didática.

Tive a oportunidade de assistir a esse filme no cinema, em uma sala lotada de mulheres, creio que, em sua maioria, lésbicas e bissexuais. Após cerca de 45 minutos comecei a me questionar por que só havia cenas de sexo envolvendo dildos, até que finalmente aparece uma cena que se relacionava minimamente com o que eu entendo como sexo entre mulheres – porém estava sendo realizado em uma igreja. Após esse fato, as próximas cenas do pornô faziam aquela sala lotada rir de forma nervosa porque, assim como eu, quase ninguém ali se sentia bem representada. Então didático não é realmente um bom adjetivo para As Filhas do Fogo, visto que o próprio público-alvo não se vê bem representado na tela.

Dito isso, volto a refletir não sobre os métodos e regras que devem constar no filme para ele ser considerado queer, mas o que ele talvez não deva ter: a intenção de conversar com o espectador padrão (homem, branco, cis, hétero, não periférico, etc.) Apesar de o filme da Albertina Carri ser experimental, ser agressivo e ter seu lado político com a questão dos corpos não-normais para uma tela de cinema, uso ele de exemplo para mostrar que também é atrativo para homens ao retratar uma liberdade sexual que dialogo com o feminismo liberal. O próprio uso do termo “pornô”, mesmo na tentativa de ressignificar, atrai exatamente o olhar de quem o filme procura evitar. Além disso, há quase um culto ao falo com o tanto de cenas que usam pênis de borracha para mostrar como mulheres transam com outras mulheres. A intenção pode ter sido das melhores, mas houve também esse descuido com um discurso levemente falocêntrico que não conversa diretamente com as mulheres lésbicas e bissexuais, seu público principal.

 “Ser queer significa levar um outro tipo de vida. Não é sobre o mainstream, margens de lucro, patriotismo, patriarcado ou sobre ser assimilado. Não é sobre diretores executivos, privilégio e elitismo. É sobre estar nas margens, definindo nós mesmas.” (Manifesto Queer Nation, Caderno de Leituras n. 53, Belo Horizonte, 2016.)

Não é possível desestruturar um sistema enquanto fortalece as estruturas do mesmo. Portanto, aprendendo com os erros e sempre na base da experimentação, o cinema queer vai descentralizando discursos e mostrando que a sétima arte é cada vez mais um lugar político e de todo mundo. Se atualmente essa construção se faz de uma maneira mais agressiva, esperamos que no futuro não precisemos nos defender tanto para que nosso lugar seja reconhecido e divulgado.


[1] O Código Hays foi um conjunto de normas morais aplicadas aos filmes lançados nos Estados Unidos entre 1930 e 1968 pelos grandes estúdios cinematográficos. 

[2] Sissy eram personagens gays afeminados, geralmente representados como comédia.

[3] O termo butch é usado para descrever mulheres lésbicas masculinizadas.



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.