31
dez
2019
Discursos urbanísticos em “Em Chamas”: como o cinema coreano tem chamado atenção para suas cidades!
Categorias: Artigos • Postado por: Matheus Benjamin

De alguma forma, o cinema asiático tem ficado cada vez mais em alta; tanto por qualidade em suas produções, como em popularização de diferentes produtos que fazem esse continente ficar em evidência. No ano que vem, as Olimpíadas no Japão atrairão ainda mais os olhares para a Ásia e o evento oferecerá diversas novidades que mostrarão um país exemplar em termos de estrutura e organização. Essas características bem gerais, comumente são associadas aos países do oriente, talvez até mesmo fazendo grandes generalizações; afinal de contas, a Ásia é grande e conta com uma vasta gama populacional.

Os desafios da contemporaneidade e os diferentes fenômenos geográficos contidos nessa área do globo atraem olhares curiosos de ocidentais que involuntariamente se chocam culturalmente com as possíveis “excentricidades” oriundas de lá. Cabe a arte desconstruir certos entraves que cada vez mais separam as civilizações, nesse caso, o cinema asiático pode também ser percebido como um grande fornecedor de informações (até mesmo fontes históricas, diga-se de passagem), de costumes, tendências, para além de outras coisas. E, na Coreia do Sul, um grande cinema vem se firmando desde o começo dos anos 2000, sobretudo com Oldboy (Park Chan-Wook, 2003) que o despontou ao mundo, sendo inclusive recriado em um novo país; seu remake lançado em 2013 foi dirigido pelo renomado cineasta Spike Lee.

Embora existam diversos filmes que retratem esse país por um outro olhar de contemporaneidade, o que mais me chamou a atenção em Em Chamas (Beoning, 2018), do cineasta sul-coreano Lee Chang-dong é a sua composição que ambienta muito bem seus personagens, frutos incontestáveis desta época, em cenários extremamente urbanos e, por vezes, grandiosos. Seu protagonista é um homem aparentemente comum; Jong-soo (Yoo Ah-in) vive afastado da cidade embora faça cotidianamente suas entregas e reside no meio rural, junto, inclusive, de uma vaca. Nesse ambiente, o personagem convive com sua própria solidão, algo que se repete ao longo do filme como um todo, tendo em vista que suas principais relações se dão em torno de uma antiga amiga do passado que lhe encontra. E, justamente, são essas relações humanas que o convocam a explorar os espaços dos grandes centros urbanos, a degustar as formas de se relacionar e viver a vida nesse ambiente muitas vezes hostil.

Essa amiga de infância, surge como um gatilho para que Jong-soo conviva com a cidade. É por meio dela que ele conhece um apartamento minúsculo, fruto da alta demografia de Seul; Hae-mi (Jeon Jong-seo), de viagem marcada para o Quênia, exibe uma bagunça organizada, com detalhes impressionantes a serem detectados, entre eles os mapas de diversos lugares em sua parede e fotos de grandes centros urbanos. Sua janela também exibe prédios altos que contrastam com a luz do sol, que parece falhar ao iluminar o pequeno ambiente. A misteriosa amiga de Jong-soo o faz ficar interessado, de alguma forma, romanticamente para com ela, sendo uma relação recíproca de alguma forma. O que contribui para que o espectador perceba essas nuances são justamente os enquadramentos do personagem quando Hae-mi viaja e ele passa a tomar conta de sua “gata imaginária”. Jong-soo é mostrado minusculamente solitário em uma imensidão de coisas no pequeno apartamento, por vezes em perspectiva baixa, para intensificar justamente esse interesse latente por descobrir o novo que poderia trazer junto dela.

A bagunça do apartamento de Hae-mi em nada se difere com o que é visto na casa de Jong-soo, diferindo muito do que é encontrado na casa de Ben (Steven Yeun), um amigo de viagem que Hae-mi faz no Quênia. Ben é um homem que apresenta certa elegância e polidez, boa aparência, cuidado e zelo com cada movimento, expressão e palavra. Seu apartamento mostra, para além da riqueza, ordenamento, objetos calculados em posições e cores pasteis. Os personagens o questionam em determinado momento, sem que ele saiba, relacionando com Gatsby, escrito por Fitzgerald, em uma vista que mostra muito bem o ambiente cheio de arranha-céus em que estão inseridos. Essa opressão e questionamento influenciam nas articulações entre os relacionamentos em que esses personagens caminham; em alguns devaneios é possível perceber isso mais a fundo. Os escapes partem, sobretudo de Hae-mi, que dança semi-nua em um contra-luz na casa de Jong-soo bastante emblemático e que marca emocionalmente o filme, um de seus pontos altos.

Ainda analisando as possibilidades estilísticas de retratos centrados na urbanidade do filme está os transportes em que os personagens tomam. Jong-soo é filmado em metrôs, com muita gente mexendo em seus smartphones à volta e também em ônibus, além é claro de sua espécie de picape, a qual difere muito da proporcionada por Ben a Hae-mi. A competição mental que o protagonista, de certa forma, faz consigo e com o “rival” é nítida, além de notável. Ben, inclusive comenta em algum momento sobre sua vizinhança ser calma e que gosta desse tipo de vertente, enriquecendo ainda mais a construção narrativa do personagem e diferindo cada vez mais as três personalidades. Hae-mi é visivelmente o fogo, enquanto Ben a gasolina; Joon-so está mais para a faísca, que poderia facilmente participar de tudo aquilo, mas prefere observar pelas beiradas.

Beoning é baseado no conto Queimar Celeiros, do escritor japonês Haruki Murakami, publicado na coletânea O Elefante Desaparece. Assim como na história original, atmosfera densa da trama é em alguns momentos sufocante; o clima em suspense deixa muitos questionamentos no ar e evidenciam ainda mais seus personagens solitários, em alguns momentos vazios que observam a vida passar pelo que têm de vista.

Nada mais contemporâneo que isso.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bergman. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.