22
dez
2019
O desafio de se realizar cinema em preto e branco nos dias atuais!
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

A última década teve quase todo ano pelo menos um filme em preto-e-branco que se tornou queridinho de crítica e/ou público: O Artista (2011), Frankenweenie (2012), Nebraska (2013), Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014), O Abraço da Serpente (2015), Cartas da Guerra (2016), Roma (2018), O Farol (2019)… Até blockbusters coloridos, como Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e Logan (2017), tiveram versões lançadas em preto-e-branco.

Há quem diga que isso é só uma moda inútil intelectualoide, que estaria mais para o aborrecimento do que para a arte. Afinal, tirando algumas exceções, a maioria das pessoas não enxerga em preto-e-branco: Se no início da história do cinema filmes eram filmados assim, é porque havia limitações técnicas que impunham isso, e já estaria na hora de seguirmos em frente e pararmos com esse tipo de filme.

Sendo, porém, que considero crítico cineastas continuarem a fazer filmes em preto-e-branco de tempos em tempos, irei argumentar em defesa desse tipo de cinema.

Primeiro, é preciso levar em conta que não existe um único tipo de cinema em preto-e-branco. Ao longo da primeira metade do século XX, conforme o cinema se espalhou internacionalmente, várias escolas estilísticas surgiram, cada uma defendendo um jeito diferente de se filmar em preto-e-branco. Embora boa parte dessas discussões girasse em torno da câmera, é um erro pensar que filmar em preto-e-branco envolve apenas a fotografia: A iluminação, o design dos cenários, a estrutura editorial e a própria maquiagem precisam ser diferentes do que seriam em um mundo colorido.

Lógico que estamos falando dos primórdios do cinema, uma época em que experimentações visuais eram quase a norma em um mundo que mudava de dia para dia com avanços tecnológicos: O próprio teatro, algumas décadas antes, passara por uma revolução visual com o advento da iluminação elétrica. Ao contrário do teatro, porém, o cinema trazia um novo desafio: O de ver o mundo apenas em preto, branco e todos os tons de cinza entre eles, e compreender como as cores são traduzidas nessa escala monocromática.

Claro que muito disso já vinha sendo discutido na fotografia, porém há uma diferença crucial: A fotografia ainda era vista por muitos como um retrato fidedigno da realidade, enquanto o cinema, desde o início do século XX, se voltou principalmente para retratar narrativas fictícias. A partir daí, o cinema se estabeleceu como um universo alternativo, ao mesmo tempo separado e ligado ao mundo real.

Entre as escolas de cinema supracitadas, é quase desnecessário dizer que a mais popular veio a ser a hollywoodiana. Nela, quaisquer inovações tecnológicas sempre foram bem vindas; logo, a partir da popularização do cinema colorido na segunda metade dos anos 1950, os dias do preto-e-branco no cinema mainstream estavam contados. Nos anos 1960, o cinema colorido já era dominante, e com ele vieram novas linguagens visuais baseadas nas cores: Nos anos 1960, a moda eram as cores mais quentes, como amarelo, laranja e vermelho, misturadas de formas psicodélicas; os contrastes de cores um pouco mais frias como verde e magenta com sombras escuras, presentes em discotecas, caracterizaram os anos 1970; e os anos 1980 foram a era do neon e sua luz roxa e ciano.

Em meio a essas mudanças, porém, o preto-e-branco continuou sobrevivendo, não mais como parte do cinema hollywoodiano convencional, mas sim dentro de outras escolas de cinema, que viam nele possibilidades que o cinema colorido não comportava: Em Asas do Desejo (1986), por exemplo, Wim Wenders utiliza a fotografia em preto-e-branco como um elemento não apenas estético, mas também narrativo, representando visualmente a privação de sentidos terrenos experimentada por seus protagonistas (dois anjos que vagam pelas ruas de Berlim Ocidental).

Além disso, o preto-e-branco é um recurso já bastante conhecido para deixar filmes de baixo orçamento com um ar mais profissional: Christopher Nolan escolheu produzir seu primeiro longa-metragem, Following (1998) inteiramente em preto-e-branco porque assim ele conseguiria disfarçar o fato de que o filme foi filmado apenas com luz natural, sem contar com quaisquer equipamentos de iluminação. É um recurso barato, mas foi um dos fatores que permitiu a Nolan produzir o filme pelo irrisório orçamento de £6 mil.

Certo, mas e quanto a Roma, que contou com um orçamento de US$ 15 milhões e, à primeira impressão, não tem qualquer desculpa narrativa para utilizar o preto-e-branco? Nesse caso, analisemos brevemente o filme: Roma é a história de uma família mexicana de classe média em crise, narrada pelo ponto-de-vista da empregada da casa, que tem seus próprios conflitos pessoais. É um filme extremamente intimista – o que é de se esperar, sendo inspirado na infância do diretor Alfonso Cuarón -, em que a narrativa é contada menos através de ações e diálogos e mais através de expressões e pequenos detalhes que exigem a atenção do espectador.

Agora imagine se Roma fosse um filme colorido. Nossa atenção acabaria pelo menos em parte sendo distraída pela cor das roupas dos personagens, da grama, do céu, em um filme no qual ela deveria estar focada em aspectos que são menos visuais e mais interpretativos. E Roma consegue ser bem-sucedido nisso justamente porque limita nossos sentidos e, assim, nos força a concentração.

Haverá filmes nos quais o preto-e-branco é apenas um recurso pedante e desnecessário? Claro. Mas quando bem usado, ele mostra sua força e prova o porquê de continuar sobrevivendo em pleno século XXI.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.