08
jan
2020
Mumblecore, parte 1: um movimento que está só na nossa cabeça
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

Com o século XXI chegando a uma nova década, é interessante analisar em retrospectiva como coisas inicialmente banais tornaram-se verdadeiros fenômenos. Peguemos, por exemplo, o filme Funny Ha Ha (2002), dirigido pelo então estreante Andrew Bujalski: Filmado em 16 mm e som monofônico, com um micro orçamento, o filme estreou no festival South by Southwest, foi exibido literalmente em apenas três salas de cinema e arrecadou pouco mais de US$ 80 mil em bilheteria. E ainda assim, muitos creditam este filme por iniciar todo um movimento cinematográfico chamado “Mumblecore”… Movimento que até os próprios diretores associados a ele rejeitam.

Ao contrário de “movimentos” e “novas ondas” anteriores, o Mumblecore é caracterizado por sua completa descentralização: Em nenhum momento um grupo de cineastas se reuniu e decidiu começar um novo movimento fílmico. Na verdade, o próprio termo “Mumblecore” (piada sobre os personagens passarem o filme todo apenas balbuciando e resmungando) não foi cunhado por nenhum diretor associado a ele, mas sim pelo editor de som Eric Masunaga, que trabalhou com Bujalski tanto em Funny Ha Ha quanto em seu segundo filme, Admiração Mútua (2005).

O termo foi registrado pela primeira vez em uma entrevista que Masunaga realizou em um bar em 2005, durante a edição daquele ano do South by Southwest – considerado o “lar” do movimento. Ainda assim, o nome popularizou, a ponto de referir-se, nas palavras de Bujalski – o “Padrinho do Mumblecore” –, a “um monte de filmes de jovens quase-idealistas”, baseados mais em atuações e diálogos do que em enredos. Piadas à parte, o consenso a respeito da definição do Mumblecore vai um pouco além.

Se for possível resumi-lo em duas palavras, seria “realismo sutil”. De um ponto de vista técnico, ele é caracterizado por orçamentos baixíssimos – Frances Ha (2012), um “blockbuster” do Mumblecore, custou apenas US$ 3 milhões – e um estilo naturalista nas atuações e diálogos, com um monte de improvisação. Narrativamente, tais filmes também possuem características em comum, focando-se nas relações pessoais de protagonistas que passam os dias procurando por amor e autoconhecimento, enquanto navegam por empregos mal pagos e relacionamentos problemáticos e/ou maçantes.

Até aí, nada original, até clichê: Quase tudo isso já foi explorado pela Nouvelle Vague francesa e por diretores como Woody Allen, Jim Jarmusch e Richard Linklater. A diferença? São filmes feitos pela chamada Geração Y para a Geração Y. Assim, não apenas a idade de seus protagonistas reflete a dos cineastas e do público esperado – 20 e poucos no começo do movimento, entre 25 e 30 no seu auge e atualmente 30 e poucos ou até 40 -, como também seus dilemas são supostamente um espelho da vida dessa geração, tratando de amor, sexo e cultura em uma era na qual tudo parece mais complicado devido à tecnologia e à crise de auto definição.

Lógico que o Mumblecore não está isento de críticas: Como já foi dito, suas ideias não são tão originais assim. E, devido à sua ênfase pesada em diálogos que pouco ou nada tem a ver com o enredo, seus filmes podem bem confusos ao público convencional. E por último, para um tipo de filme que é baseado no princípio de refletir a vida do espectador, o Mumblecore possui uma noção um tanto restrita de quem é afinal esse espectador: Nascido entre meados dos anos 1970 e meados dos anos 1980, majoritariamente branco, pseudo-intelectual, incapaz de ter um relacionamento duradouro e com uma situação financeira que, quanto mais se pensa, é melhor do que suas constantes reclamações fazem parecer.

Mas, considerando o fenômeno no qual o Mumblecore se tornou, com dezenas de filmes que atraíram uma nada pequena legião de fãs, não dá para negar seus méritos: Para uma geração de jovens letrados, porém desajeitados, o movimento realmente lhes deu uma voz e capturou seus estados emocionais de forma despretensiosa, mas também esperta e terna. São filmes modestos, mas charmosos e sensíveis. E quando bem dirigidos, podem ser divertidos, excêntricos e até um tanto agridoces. Sem falar que seu foco em atuações naturalistas consegue torna-los envolventes mesmo quando a narrativa parece perambular sem rumo de forma intolerável.

Certo. Então, após quase vinte anos, por que falar do Mumblecore agora? Simples: Os artistas ligados a ele (mesmo que contra a vontade) estão, de uma forma ou de outra, seguindo em frente. O filme mais recente de Andrew Bujalski, Support the Girls (2018), possui uma estrutura narrativa muito mais convencional do que seus filmes anteriores. O mesmo aconteceu com Aaron Katz, que dirigiu filmes Mumblecore como Dance Party, USA (2006) e Cidade Tranquila (2007). Greta Gerwig, que atuou e escreveu vários filmes Mumblecore, está lançando (mais) uma adaptação do clássico romance Mulherzinhas. E o cineasta Joe Swanberg criou a série Easy, que, embora mantenha elementos do Mumblecore, explora um doloroso mundo adulto que é novo ao movimento.

O Mumblecore continua a existir, mas cresceu. Não vira mais as costas a Hollywood em rebeldia juvenil: Aceita algumas de suas convenções, mesmo que de forma mais contemplativa. E, com uma nova geração de cineastas começando a dar voz à Geração Z com filmes como Oitava Série (2018) e Fora de Série (2019), talvez seja mesmo hora do Mumblecore dar espaço para algo novo ascender e fazer as coisas de um jeito diferente. Mas não se preocupem, ainda há esperança para esse jeito específico de fazer filmes. E isso deixaremos para uma próxima postagem…



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.