27
jan
2020
Mumblecore, parte 2: Mumblegore e o terror cabeça
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

Recentemente escrevi sobre o movimento “Mumblecore”. Iniciado a partir de 2002 com o Funny Ha Ha, é caracterizado por micro orçamentos, elencos pequenos, diálogos naturalistas de grande importância para a narrativa, atuações fortemente improvisadas e temas existencialistas girando em torno da vida de pessoas da geração Y. O Mumblecore veio a encontrar grande aclamação crítica, e rapidamente se espalhou pelo cenário do cinema independente nos EUA.

Foi questão de tempo, portanto, para que a ascensão do Mumblecore inspirasse um grupo de cineastas da mesma geração a fazer filmes com os mesmos princípios básicos, mas também uma diferença crucial: Enquanto o Mumblecore é um gênero essencialmente dramático (e talvez um pouco cômico), esses cineastas em questão resolveram trilhar o caminho do suspense e terror. Foi a partir dessa mistura de gêneros e linguagens visuais que nasceu o “Mumblegore” (trocadilho com a palavra inglesa para “sanguinolência”), o irmão mais novo, mais agressivo e, possivelmente, mais interessante do Mumblecore.

Por que mais interessante? Talvez porque fazer sucesso com filmes de gênero seja mais arriscado do que com dramas e comédias convencionais. E mesmo dentro do suspense e do terror, o Mumblegore arrisca fugindo dos estúdios hollywoodianos e suas constantes interferências para poder fazer filmes independentes que fogem das convenções: Ao invés de violência explícita e matanças generalizadas (que mesmo em produções de grande orçamento parecem entretenimento barato), seus cineastas investem em pequenas histórias cerebrais, nas quais o medo é mais psicológico do que visual. Menos sustos de pular da cadeira, e mais tensão que é construída lentamente de forma a provocar o espectador.

Mesmo dentro do Mumblegore existem diferentes sensibilidades artísticas: Há espetáculos repletos de sanguinolência – como Cheap Thrills (2013) – e há outros praticamente sem qualquer sangue – a exemplo de Coerência (2013). Da mesma forma, A Casa do Demônio (2009) é uma homenagem retrô aos filmes de terror dos anos 70 e 80, enquanto Martha Marcy May Marlene (2011) é tão intimista nas tensões entre seus personagens que beira ao drama psicológico. Mas independente se é mais ou menos violento, mais ou menos aterrorizante, a ideia norteadora segue a mesma: Gerar calafrios e excitações no espectador com filmes que, assim como no Mumblecore, são focados em personagens mais do que em visuais.

Não é apenas nos princípios estilísticos que Mumblecore e Mumblegore são aparentados: Não raro, cineastas Mumblecore acabam fazendo filmes Mumblegore, e atores conhecidos do movimento como Mark Duplass e Greta Gerwig já atuaram em filmes de suspense e terror. E, assim como o Mumblecore, o Mumblegore também tem refletido em muito a cultura dos últimos quinze anos, com a diferença de fazê-lo através do filtro pelo qual filmes de terror retratam a cultura das diferentes eras desde seu surgimento: Mostrando do que sentimos medo e o que nos leva a seguir o pior caminho possível para nós mesmos.

Pegue, por exemplo, os filmes de terror americanos dos anos 80 e 90, especialmente o gênero slasher que tanto os marcou. Os personagens geralmente começam felizes, despreocupados e em um ambiente protegido, e conforme o enredo progride são punidos por sua falta de cautela. Tais filmes, portanto, refletem um país que vivia uma boa situação econômica e o lento fim da Guerra Fria, no qual a típica família média podia se dar o luxo de viver uma vida aparentemente normal e se divertir… Mas sabia que havia coisas sombrias no mundo, e o medo era de que elas chegassem perto demais em um momento de guarda baixa.

A partir da segunda metade dos anos 2000, porém, tal imaginário de mundo já não funcionava mais – como provou uma série de remakes e ressurgimentos mal sucedidos que os grandes estúdios tentaram fazer dos filmes de terror daquela época -, devido ao colapso financeiro de 2007, o questionamento do estilo de vida super industrializado dos anos anteriores, a mudança nos hábitos de consumo de drogas, o aumento do desemprego e a natureza um tanto escusa da Guerra ao Terror.

Percebe-se, portanto, nos filmes Mumblegore uma tendência à narrativa já começar em uma situação estressante ou rapidamente chegar a uma – problemas financeiros, a morte de familiares próximos ou uma alienação da realidade causada por doença mental, drogas ou participação em um culto -, e o maior medo não é perder a vida normal e despreocupada do começo do filme, mas sim nunca mais voltar a uma normalidade anterior à própria narrativa. Os personagens não são mais punidos pela falta de cautela, mas sim pelas péssimas decisões que o desespero os leva a tomar.

Por fim, outro grande motivo pelo qual o Mumblegore é um fenômeno cinematográfico tão interessante é que ele efetivamente mudou a forma como filmes de terror são consumidos. Com o movimento entrando em evidência e o público se familiarizando com seu estilo ultra barato de fazer cinema, outros cineastas começaram a se arriscar fazendo filmes de terror independentes, mesmo que nada tivessem a ver com o naturalismo do movimento. E essa onda de terror indie parece que veio para ficar, com muitos filmes como Corrente do Mal (2014), A Bruxa (2015) e Hereditário (2018) fazendo enorme sucesso.

Distorcido, underground, por vezes ácido, mas também inteligente, o Mumblegore pode não ser da preferência de todo mundo; mas entre o público que gosta de passar por maus momentos (no bom sentido) em frente à tela, é um estilo que veio para ficar.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.