19
fev
2020
Crítica: “Frankie”
Categorias: Críticas • Postado por: Rayane Taguti
Poster Frankie

Frankie

Ira Sachs, 2020
Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias
Distribuidora do filme

3

O primeiro plano de Frankie (2020), o mais recente filme de Ira Sachs, já dita como será o resto da fotografia de Rui Poças nos próximos 100 minutos: de cores marcantes e planos longos. O azul da piscina, o laranja do roupão da personagem principal, o verde das plantas – tudo indica esse cenário como o local perfeito para passar um bom tempo na companhia da família. O que, de fato, é a intenção de Frankie.

O local é Sintra, uma cidade turística e próxima à costa de Portugal. Isabelle Huppert interpreta uma renomada atriz francesa que costuma manipular todas as situações para que saiam de acordo com o seu desejo. Dessa forma, após enfrentar uma luta contra um câncer e ele ter retornado, Frankie leva toda a sua família, incluindo a constituída com seu ex-marido, Michel (Pascal Gregory) e a com o atual, Jimmy (Brendan Gleeson), para férias prolongadas nesse lugar paradisíaco.

Frankie é uma comédia dramática sobre e para a burguesia europeia, apesar de não provocar o riso intencionalmente. Aliás, o formato do filme lembra muito os sketches de Elia Suleiman (Intervenção Divina (2002), Crônica de um Desaparecimento (1996), etc.) ao apresentar muitos personagens e, com isso, várias micro-histórias dentro da história principal. A tristeza de Jimmy quanto à ideia de uma vida sem Frankie; o provável divórcio entre a filha de Jimmy, Sylvia e seu marido Ian; a filha dos dois, Maya, conhecendo um garoto na praia; uma maquiadora e grande amiga de Frankie se separando após ser pedida em casamento. Os problemas retratados são devera simples e emocionais, dando abertura para uma profundidade (infelizmente muito pouco explorada no filme) e uma intimidade que cativa facilmente o público.

O filme é falado em francês, inglês e português de Portugal, e por um elenco de atores excelentes, como Isabelle Huppert, Greg Kinnear, Marisa Tomei, entre outros, mas que parecem não dar tudo de si. É uma história simples, com atuações quase cotidianas. O destaque das atuações fica para os momentos íntimos entre Huppert e Gleeson. Arriscaria dizer que esse é um filme especial para introvertidos. É palpável a solidão antecipada de Jimmy, o carinho do dia a dia que Frankie tem por ele, o calor das peles do casal na cama. É também delicioso apreciar as vistas de Sintra e as histórias que o guia turístico, Tiago, conta sobre a cidade, principalmente sobre a água milagrosa.

Apesar de algumas características medianas, o filme matura muito bem após o fim. É uma história que acompanha o espectador porque é uma história com sentimentos universais. Lidar com a morte (ou com o medo e a proximidade dela) nunca é fácil, e Frankie aborda o assunto de uma forma leve e ao mesmo tempo real. Todos temos Frankies em nossa vida e, em algum momento, também seremos a personagem. É difícil não se identificar e não refletir sobre a efemeridade da vida.

Por fim, Frankie é um filme que equilibra assuntos e, apesar de ser uma história simples na maior parte do tempo, ainda assim nos tira o fôlego quando termina. A última cena é contemplativa e catártica, dando tempo para o espectador se pegar apreciando a própria vida. Frankie é uma ótima companhia para se ter em uma tarde preguiçosa de verão.



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.