07
fev
2020
Crítica: “O Escândalo”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2020 • Postado por: Matheus Benjamin

O Escândalo (Bombshell)

Jay Roach, 2020
Roteiro: Charles Randolph
Lionsgate

3

Contar uma história real no cinema necessita de muita habilidade em questão de narrativa. Tudo precisa estar bem amarrado, orquestrado e com agilidade para que não se torne um produto maçante. Algumas táticas para evitar de cair no convencionalismo são utilizadas em O Escândalo, dirigido por Jay Roach. Inclusive, logo nos primeiros minutos de projeção o cineasta já deixa bem claro que pode ser que alguns possíveis nomes tenham sido alterados e personagens sejam inseridos dramaticamente para ajudar a contar a história. Esse recurso, embora didático, nesse caso faz muito sentido e funciona como um alerta ao espectador. 

E embora o longa possa ser considerado um exercício metalinguístico com o artifício de quebra da quarta parede, ela não parece estar tão presente em todos os instantes. Há uma direção de fotografia muito preocupada em utilizar um certo foco curto e a câmera na mão, a fim de parecer algo filmado na hora e também uma direção cautelosa interessada em construir novos padrões estilísticos, mas tudo acontece de forma instantânea e em poucos momentos, o que pode causar um certo estranhamento para o todo da obra. Desse modo, apesar dos pesares, o considero um bom exemplo para se falar sobre sororidade, assédio sexual e moral no ambiente de trabalho, mesmo que em alguns momentos ele pareça não sair da superfície; mas para um longa que concorre a algumas categorias no Oscar isso pode ser uma grande qualidade, tendo em vista que vai atingir uma maior quantidade de pessoas.

Para quem não está familiarizado com a televisão americana, nos últimos anos um dos maiores nomes da Fox News foi processado por uma antiga âncora do canal sob a severa acusação de assédio sexual; além dela, outras mulheres corroboraram o caso, o que levou seu afastamento e demissão. O Escândalo, então, nos mostra a evolução deste caso, desde os rumores a exemplos. Gretchen Carlson (Nicole Kidman) é a âncora que desafia Roger Ailes (John Lithgow) o homem mais poderoso, até então, da Fox. Depois de inúmeras retaliações a ela mesma nos programas da emissora até sua demissão, Gretchen resolve então reunir provas para processá-lo e encontra inúmeros desafios durante seu percurso, tendo em vista que ela é inicialmente desacreditada por todos. A personagem, no entanto, é ofuscada na narrativa, pois ela se mantém reclusa quase que por todos os instantes narrados. 

Quem rouba o protagonismo é Megyn Kelly (personagem de Charlize Theron) que já começa o longa colocando o espectador a par dos precedentes aos acontecimentos que serão mostrados ao longo da projeção. E são muitas informações, muitos nomes, muitos fatos; tanto é que algumas legendas com os nomes de determinadas pessoas vão sendo inseridas conforme elas vão aparecendo à trama. Outra personagem importante para o filme é Kayla Pospsil (Margot Robbie) que não existe na vida real. Ela ilustra habilmente outras possíveis mulheres que também sofreram assédio na emissora. Kayla, inclusive, é uma das personagens mais interessantes da narrativa, sobretudo por sua personalidade e camadas que vão sendo desenvolvidas ao longo da projeção. É com ela que cenas extremamente profundas são dramatizadas.

De alguma forma, a rivalidade feminina também é exposta, mostrando que as três personagens inicialmente são colocadas em lados opostos, tanto pelos colegas de trabalho, quanto por executivos, quanto pela própria mídia. Algumas soluções de direção soam um pouco artificiais, mas não comprometem a mensagem do longa que ainda conta com as atuações de Connie Britton (como a esposa de Roger), Brigette Lundy-Paine (como assistente pessoal de Megyn), Malcom McDowell (como o dono da Fox News) e Allisson Janney (como a advogada de Roger). Nesse sentido, O Escândalo também é um filme de atuações, nas quais os personagens são extremamente confrontados, o que dá uma vasta gama de aprofundamento para seu elenco. Lembrando que Charlize Theron e Margot Robbie concorrem ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, por seus papéis neste filme.

Entretanto, somente as boas atuações do elenco principal e os artifícios narrativos para escapar do lugar comum não se mostram suficiente para marcar o longa e por deixá-lo com finais vagos e superficiais, os momentos marcantes não se sobressaem como o esperado. Sendo assim, assisti-lo despretensiosamente vai causar uma melhor impressão, mesmo com todos os acertos corretos e defeitos catastróficos.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bergman. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.