03
fev
2020
Crítica: “Parasita”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2020 • Postado por: Rayane Taguti

Parasita (기생충)

Bong Joon-ho, 2019
Roteiro: Bong Joon-ho e Han Jin-won
Pandora Filmes

5

Bong Joon-ho talvez já tenha construído sua fama entre os cineastas e cinéfilos com filmes como O Hospedeiro (2007), Mother – A Busca Pela Verdade (2009) ou com O Expresso do Amanhã (2013), mas é a partir de 2017, com Okja, lançado pela Netflix que seu nome começa a chegar a lugares não predominantemente artísticos. Parasita, seu último filme, lançado em 2019, veio para consagrar Bong Joon-ho como um dos diretores mais aclamados da atualidade.

Este é o oitavo longa-metragem de Bong Joon-ho – um currículo relativamente pequeno, mas que já demonstra traços de um denominador comum: a desigualdade social. Apesar de declarar que não era sua intenção criar uma trilogia de classes com O Hospedeiro (2007), Okja (2017) e Parasita (2019), o diretor reconhece que o tema é, de fato, relevante no cinema mundial e também no cinema sul coreano, onde encontra-se diversos filmes que escancaram a desigualdade no país, como os recentes A Empregada (2016), Em Chamas (2018), etc.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme sul coreano traz ao cinema a realidade do oprimido. Diz-se parasita o organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano. Também é, de maneira pejorativa, o indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça. O termo é usado para retratar a estratificação social na Coréia do Sul, tendo como representantes a família Kim – composta por pai, mãe e dois filhos, todos desempregados e vivendo em uma espécie de porão imundo –, e a extremamente rica família Park, de pai empresário, mãe do lar e filhos focados apenas em estudos e brincadeiras.

A primeira metade do filme constitui nos planos quase inacreditáveis de tão cômicos da família Kim para se infiltrar na casa dos Park. Primeiro o filho como tutor de inglês, depois a irmã como arteterapeuta, o pai como motorista e, por fim, a mãe como governanta. As relações de classe já são óbvias, mas, de alguma forma, não há ainda um conflito entre as famílias, até porque, do ponto de vista biológico, o parasita obrigatório necessita que seu hospedeiro esteja vivo, mantendo, assim, uma relação de equilíbrio.

É por volta da metade do filme que começamos a entender – e os personagens também – que as diferenças sociais entre as famílias são gritantes. A cena da inundação mostra o que é o mais óbvio: a parte mais baixa sempre inunda primeiro. Além disso, o suspense nos depara com outras histórias de desigualdade, mas, nesse caso, quanto menos informação o espectador tiver antes de assistir, melhor.

Chegando ao final dos 131 minutos de filme, fica muito claro que a narrativa se encaminha para a violência. Não há outra saída. É uma briga entre oprimido e opressor, mas também entre oprimido e oprimido, o que não deixa de ser uma reflexão muito sutil sobre a realidade mundial atual. É quase palpável o momento em que o pai da família empregada, Kim-taek, percebe que, por mais bonzinho que seja seu patrão, suas prioridades e realidades são extremamente distintas. Dá quase para ouvir a ficha caindo. Dessa forma, o filme caminha para um final trágico, compactuando com a visão de estratificação social onde a mobilidade social ocorre sempre em ambos os sentidos, para cima e para baixo. Fica mais do que claro que classe social segue qual caminho.

Dizer que esse filme é universal é, de fato, verdade. É possível se identificar com ele em qualquer canto do mundo regido pelas mesmas políticas econômicas que geram as desigualdades retratadas por Bong Joon-ho. Porém, não é possível dizer que a experiência é tão universal assim. Seria ingenuidade acreditar que pessoas de classe média e alta (que, convenhamos, é aonde o cinema chega) tenham um grau de identificação tão profundo quanto alguém que se identifique de cara com a família Kim.

Dessa forma, o filme é esteticamente muito bem construído, desde a arquitetura das casas (as relações entre as janelas das casas com telas de cinema já gerariam um artigo interessante por si só), os diálogos muito bem entrelaçados, atuações fenomenais, até a organização de planos mais fechados em lugares claustrofóbicos e planos mais abertos nos ambientes gigantes da casa dos Park. Porém, um dos únicos pontos a se criticar negativamente é a identificação com o filme por parte do público menos privilegiado. Como classe média e alta, o espectador sente predominantemente um dó, uma raiva crescente com as desigualdades e reflete muito sobre a questão de privilégios. Já essa análise vista do ponto de vista de quem se vê em Kim-taek, Kim-woo, Kim-jun e Choong-sook causa algo mais próximo do mal-estar sem solução.

Por fim, o filme consagrou seu lugar entre os mais aclamados de 2019, vencendo a Palma de Ouro de Cannes e sendo indicado em 6 categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Parasita é um filme que será comentado ainda por muito tempo ao trazer suas reflexões sobre quem realmente é parasita de quem na sociedade com os moldes atuais.



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.