09
fev
2020
“Democracia em Vertigem”: O antes e o depois da indicação ao Oscar!
Categorias: Artigos, Maratona Oscar 2020 • Postado por: Rayane Taguti

O último filme de Petra Costa – mesma diretora de filmes como Elena (2012) e O Olmo e a Gaivota (2014) – traz uma visão sobre os acontecimentos que levaram à ruptura social e política no Brasil em 2016, além de refletir sobre possíveis desdobramentos dessa emblemática parte da nossa história para a política atual. Traçando um paralelo com a vida da diretora, Democracia em Vertigem (2019) aborda o impeachment de Dilma Rousseff, a trajetória de vida de Lula, desde quando metalúrgico até a sua prisão em uma das ações da Lava Jato, e uma pequena parte das eleições de 2018 que ascenderam Jair Bolsonaro ao mais alto posto da política brasileira: a presidência.

É bastante claro que o contexto político retratado no documentário dividiu ainda mais fortemente o Brasil em dois grupos antagônicos, esquerda e direita. A diretora traz a visão de um desses lados. Há diversos filmes brasileiros retratando o mesmo período, como O Processo (2018), Impeachment, o Brasil nas Ruas (2017), entre outros, alguns sendo claramente pró-afastamento da ex-presidenta, outros mal tomando partido. Posto isso, iremos analisar o filme e sua recepção pelo público nos períodos pré-indicação ao Oscar e pós-indicação ao Oscar.

Ao ser lançado, em junho de 2019, Democracia em Vertigem atingiu primeiramente os interessados pelo lado político defendido no documentário. A subjetividade de Petra Costa ao se colocar como personagem e narradora, as entrevistas com sua mãe sobre a ditadura, o contraste dos avós economicamente privilegiados e defensores de uma extrema-direita insurgente com os pais militantes da ideologia oposta; toda a retórica é construída para criar uma proximidade com o espectador. E isso, em um primeiro momento, agrada. Há um equilíbrio entre narração, silêncio, exposição de fatos históricos, análises e até mesmo as tão cobradas autocríticas ao Partido dos Trabalhadores e à esquerda brasileira como um todo. Com essa análise ampla do nosso cenário político, Petra Costa deixa ao espectador a nobre função de construir sua própria opinião.

Poderia encerrar o texto por aqui e talvez apenas complementar que algumas escolhas cinematográficas não me agradaram tanto no filme, como os numerosos travellings em câmera lenta passando por salas do Palácio do Alvorada, e as imagens de drones da Esplanada dos Ministérios que parecem ter sido recicladas momentos diferentes. Ou ainda dizer que traçar um paralelo da história pessoal com a história da democracia brasileira em alguns momentos caiu em uma poesia levemente piegas e uma tentativa de lavar as mãos por fazer parte da elite do país. Porém, graças à indicação ao Oscar 2020 na categoria Melhor Documentário, algo está chamando bastante a atenção em relação à recepção do filme pelo espectador, agora não mais apenas partidário das opiniões e histórias contadas por Costa. Democracia em Vertigem atingiu um público brasileiro ainda mais amplo; um público que vem disfarçando opiniões extremamente pessoais – e até mesmo ataques desnecessários – como críticas ao filme, à diretora e aos militantes opostos à extrema-direita vigente no nosso governo.

É provável que a concepção de que um documentário tem compromisso com a verdade universal e, portanto, deve mostrar todos os lados de uma história tenha causado certos comentários indignados sobre Democracia em Vertigem. Acusado de ser uma ficção por Pedro Bial e Roberto Alvim (aquele do vídeo com referências explícitas ao nazismo) – que parecem também não entender a ideia de documentário – o filme vem ganhando cada vez mais uma audiência negativa, carregada de um discurso raivoso. Característico de comentários da extrema-direita atual, as críticas amplamente direcionadas à Petra Costa tentam invalidar suas opiniões ora por ser herdeira da Andrade Gutierrez, ora se referindo à sua voz como chata e chorosa ou propositalmente esquecendo seu nome, artifício baseado na humilhação por insignificância.

A dificuldade desse novo público em aceitar que as imagens mostradas no filme são reais é sintomático em uma sociedade que procura negar até que a ditadura militar ocorreu no país, por exemplo. Chega a ser difícil ignorar que a guerra cultural citada por Roberto Alvim em seu comentário contra o filme esteja, de fato, acontecendo. O que teria acontecido com o documentário se, ao invés de ser distribuído com capital privado (Netflix), fosse um filme contemplado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)? Não há um posicionamento definido do governo quanto à censura a filmes que não passem pelo filtro bolsonarista, mas, a exemplo de Marighella, de Wagner Moura, que teve seu lançamento adiado por prováveis questões políticas, é de se imaginar, depois dessa recepção ardilosa pós-indicação ao Oscar, que um filme como Democracia em Vertigem teria uma trajetória com barreiras semelhantes.

Todo esse antagonismo com relação às críticas ao filme proporcionado pelo próprio antagonismo sociopolítico brasileiro apenas fortalece a “vertigem” presente no título do filme. Democracia em Vertigem não deixa de ser didático ao explicar um contexto tão importante da história do Brasil para pessoas do mundo todo, inclusive para a população brasileira. Também não deixa de ser um documentário por retratar a visão pessoal da diretora. A ética presente em uma expressão artística não pode ser comparada ao que se espera de uma matéria jornalística. Por fim, uma indicação ao Oscar tão política quanto essa veio em bom momento para lembrar ao mundo que a democracia tão recentemente conquistada está também em constante ameaça.



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.