29
fev
2020
Como “I Am Easy To Find” de Mike Mills se relaciona com o álbum homônimo da banda The National
Categorias: Artigos • Postado por: Rayane Taguti

I Am Easy to Find é o oitavo álbum de estúdio da banda americana de indie rock The National, lançado em 17 de maio de 2019. Ele também representa a evolução e adaptação da banda no cenário multimidiático que enfrentamos na linguagem audiovisual atualmente com uma graciosidade admirável.

Já é quase automático associar a produção artística musical à audiovisual, justamente por causa dos chamados videoclipes. Pode-se considerar The Beatles como a banda que começou a popularizar a mescla entre cinema e música. Já que não podiam estar em todos os lugares para se apresentar, eles passaram a se gravar cantando e exibir na televisão. Antes deles, alguns experimentos entre montagem e música foram feitos por cineastas renomados, como Dziga Vertov e Walther Ruttmann, na tentativa de criar um novo tipo de narrativa cinematográfica. Porém, a popularização do videoclipe foi intensa a partir dos anos 1980 com o surgimento da Music TeleVision, a MTV.

A partir disso, desenvolveu-se a chamada Estética Videoclipe, caracterizada por fragmentações na montagem, planos curtos e narrativa não-linear, principalmente. Devido a internacionalização da produção e seleção de vídeos realizadas pelo canal de televisão, alguns autores também se referem ao fenômeno como “Estética MTV”.

Desde então, o videoclipe passou a influenciar o audiovisual como um todo, adentrando o cinema, a TV, a videoarte, propagandas, entre outros. É possível analisar que a estética videoclipe se firmou com tanta força que não necessita de inovações grandiosas para sobreviver. Na verdade, é o cinema que está a utilizando desde os anos 2010 para se renovar.

No entanto, I Am Easy to Find transita entre cinema e música de uma forma diferente, isso porque o álbum é acompanhado de um curta metragem homônimo com duração de 24 minutos dirigido por Mike Mills. O álbum não foi criado para o filme; o filme não foi criado para o álbum. Mills os define como “irmãos divertidamente hostis que gostam de roubar um do outro.”[1]

“A música parecia caótica no começo, mas então ela gostou.”

Mike Mills é um cineasta estadunidense que dirigiu, entre outros, Impulsividade (2005), Toda Forma de Amor (2010) e Mulheres do Século 20 (2016), além de videoclipes de bandas como Air, Blonde Redhead, Yoko Ono, capas de álbuns, e propagandas para marcas famosas, como Nike, Apple, Facebook, GAP, etc. Pode-se dizer que Mike Mills não vê problemas em transitar por várias formas do audiovisual, e isso o levou a contatar a banda The National na tentativa de fazerem algo juntos. Mills só não esperava que a banda fosse tão receptiva, já até enviando algumas faixas em que estavam trabalhando para o próximo álbum, entre elas: Oblivions, Quiet Light e I Am Easy to Find.

O resultado é um curta metragem que não gira em torno de uma música nem do álbum todo da banda, mas são fragmentos de músicas que não tem um início nem final bem definido. Inclusive, os arranjos musicais do filme são diferentes do álbum porque o processo criativo de ambos foi feito em conjunto. A cada corte que Mills enviava para Matt Berninger, o vocalista do The National regravava as músicas, às vezes até dentro do banheiro de um hotel enquanto estavam em tour. O curta de Mills se torna uma experiência musical para o álbum que vai muito além de apenas escutar as músicas. Ele traz sentimentos muito profundos e expositivos que atuam quase como a forma visual do que a banda The National se propõe a trazer em suas músicas desde seu debut, em 2001.

I Am Easy to Find, o filme, traz um pouco da estética videoclipe ao se definir como uma vida em 164 momentos. Ou seja, Mills traz o corte rápido na montagem (por volta de oito segundos cada plano) para expressar o que é ser humano hoje em dia. Alicia Vikander – Ex Machina (2014) e Tomb Raider (2018) – interpreta a personagem principal, sem nome, que poderia ser a representação de qualquer pessoa. É a mesma atriz que interpreta um bebê, uma criança, uma adolescente, uma jovem, uma adulta, uma senhora, confiando não em maquiagem ou efeitos visuais, mas principalmente em sua performance física em frente à câmera para demonstrar essa passagem de tempo. Essa representação nos faz refletir sobre como somos a mesma pessoa durante todo o percurso da vida, mesmo que pensemos o que uma das legendas sugere: “ela se pergunta como ela se tornou essa pessoa, não outras.”[2]

“Ela se pergunta o quanto ilude a si mesma.”

O filme mistura música, personagens cantarolando diegeticamente, atores conversando e legendas silenciosas que funcionam como guias narrativos e com um poder de exposição poeticamente profundo. Tudo isso ao mesmo tempo. O conjunto todo da obra (álbum e filme) são bastante tocantes e de fato funcionam muito bem juntos e separados, mas, dentro do curta, o uso das legendas é a cola de todos os elementos, trazendo uma carga emocional simples e poderosa. Só leva alguns segundos para você acostumar com a forma do filme e esquecer que é uma atriz famosa na tela e que é The National tocando, tamanha importância do que está sendo mostrado.

Por último, é importante ressaltar como o filme influenciou na construção do álbum tanto quanto as músicas enviadas por Berninger para Mills influenciaram o filme. O filme foi finalizado quando apenas a primeira metade do álbum I Am Easy to Find estava gravada. Com essa carga de inspiração, a banda usou de algumas legendas para compor mais músicas – Dust Swirls in Strange Light, por exemplo – e a grande presença de vocais femininos surgiu do curta de Mike Mills também. Bryce Dessner, guitarrista da banda, se perguntou por que escutava a voz de um homem quando o filme todo era focado em uma mulher. Assim, a partir de uma reflexão simples influenciada por uma obra audiovisual que usava de músicas da banda, The National ousou e em algumas músicas a voz marcante do vocalista Matt Berninger fica em segundo plano para dar luz às vozes de Gail Ann Dorsey, Eve Owen, Diane Sorel, Mina Tindle, Lisa Hanningan, Sharon Van Etten e Kate Stables.


[1] “Playfully hostile siblings that love to steal from each other.”

[2] “She wonders how she became this person, not others.”



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.