11
mar
2020
7 Filmes importantes para se pensar os tiroteios escolares
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: David Ehrlich

Após o massacre de Columbine em 1999, tiroteios em escolas receberam especial atenção. Filmes, livros, músicas e peças inspirados por esses eventos assustadoramente frequentes têm sido lançados com certa regularidade, e usados não apenas para expressar sentimentos quanto a essas tragédias, mas também chamar a atenção para suas causas.

É difícil, porém, encontrar filmes que abordem um assunto tão delicado sem apelações ou sentimentalismos desnecessários. Felizmente eles existem, e aqui se encontram sete grandes exemplos de filmes que, de uma forma ou de outra, discutem a violência escolar.

Se… (Lindsay Anderson, 1968)

Em sua estreia no cinema, Malcolm McDowell interpreta um personagem assustadoramente semelhante ao seu Alex de Laranja Mecânica (1971): Mick Travis, líder de um grupo de estudantes de internato constantemente repreendido pelo seu desdém às normas autoritárias. Ingênuos e sinistros, eles vivem repetindo bordões radicais de morte aos tiranos e sobre violência e revolução serem “os únicos atos puros” – culminando em um clímax irreverente e horripilante, em que iniciam um tiroteio como forma de resistência contra seus opressores. Lembrando que Se… foi feito quando tiroteios assim não eram vistos como uma realidade plausível, e o final é para ser alegórico.

Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002)

Um dos documentários mais relevantes de Moore, Tiros em Columbine parte do massacre de 1999 para contemplar as raízes do evento, abordando a violência armada e a surreal cultura armamentista americana, que defende a existência de leis que permitam atirar primeiro e perguntar depois – e como os próprios americanos parecem não perceber isso, preferindo culpar bodes expiatórios como filmes e jogos violentos. O filme pode não oferecer nenhuma resposta articulada quanto ao controle de armas, mas seu êxito é em por argumentos à mesa para iniciar uma discussão sobre o que afinal está errado nos Estados Unidos para essas tragédias serem tão frequentes lá.

Elefante (Gus Van Sant, 2003)

Baseado em parte no massacre de Columbine, o filme retrata eventos girando em torno de um tiroteio escolar – não só pelo ponto de vista dos perpetradores, mas principalmente de estudantes que seguiam normalmente com suas rotinas, explorando temas de alienação e angústia adolescente, e de como é difícil sabermos de toda a verdade em um caso desses (o título faz referência à parábola dos cegos e do elefante). Elefante foi alvo de breve polêmica em 2005 após os tiroteios de Red Lake, pois o assassino supostamente havia assistido ao filme apenas duas semanas antes. Ainda assim, continua sendo uma das melhores respostas do cinema quanto ao por que desses massacres.

Polytechnique (Denis Villeneuve, 2009)

O filme de Villeneuve gerou controvérsia em seu lançamento ao fazer a cidade de Montreal reviver uma de suas maiores tragédias – o massacre da Escola Politécnica de 1989, em que 14 mulheres (em sua maioria estudantes de engenharia) foram mortas – por motivos supostamente comerciais. Polytechnique, porém, reacendeu debates quanto ao motivo que levou o perpetrador do massacre, Marc Lépine, a cometer seu crime: o ódio que ele tinha contra feministas, às quais culpava pelos problemas de sua vida. O filme também explora como era a vida de jovens engenheiras na Montreal dos anos 80, e os machismos rotineiros que elas já sofriam sem alguém tentando baleá-las.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lynne Ramsay, 2011)

Com seu foco bastante original nesse problema social – ignorando o perpetrador de um massacre escolar para focar-se na mãe dele -, este é provavelmente o mais assustador dos filmes desta lista. O fenômeno em si dos tiroteios escolares aqui pouco interessa (a ponto de a cena do massacre ironicamente envolver um arco-e-flecha), e o filme não oferece nenhuma explicação concreta para os atos do personagem-título. O que resta é vermos a miséria da vida da protagonista – tanto antes quanto depois do atentado -, devido a um filho que, embora não consiga explicar direito o que faz, parece assustadoramente consciente do sofrimento que causa.

Os Sujos (Matt Johnson, 2013)

Dois adolescentes fazem um filme para a escola em que se vingam dos valentões que os agridem, e quando o professor rejeita o projeto por sua violência excessiva resolvem que o filme seria melhor se eles de fato atirassem nos valentões com armas de verdade. Com uma dose de humor que torna o filme ainda mais perturbador, só pela premissa percebe-se a possibilidade de discussão quanto às perigosas consequências de não se conseguir diferenciar fantasia de realidade; mas Os Sujos se torna ainda mais ousado e relevante quando se descobre que muitas cenas foram feitas de improviso em uma escola ativa, sem que os participantes soubessem que estavam sendo filmados.

And Then I Go (Vincent Grashaw, 2017)

Dos filmes desta lista, este é o que mais humaniza os perpetradores de tiroteios, reconhecendo que, embora muitas vezes se queira ver assim, nem sempre tiroteios escolares envolvem doenças mentais. Às vezes, eles são produtos de lutas comuns, porém esmagadoramente reais da juventude, exacerbadas por adultos que se esqueceram delas ou as minimizam. É nesses casos que And Then I Go se foca, um filme poderoso sobre dois amigos que planejam um tiroteio para se vingar dos colegas que tornam sua vida escolar miserável. Ele reconhece que não há resposta fácil para prevenir tais tragédias, mas empatia e paciência para ouvir e respeitar os jovens já são um começo.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.