13
nov
2018
Crítica: “Super Drags” (1ª Temporada)
Categorias: Séries e TV • Postado por: Rafael Hires

Super Drags

Fernando Mendonça, Anderson Mahanski e Paulo Lescault, 2018
Roteiro: Vânia Matos, Chico Amorim, Fernanda Brandalise, Marcelo Souza e Paulo Lescault
5 episódios (23-25 min.)
Netflix

5

Não é de hoje que o público LBGT+ vem sofrendo constantes ataques dos mais diversos tipos de grupos da sociedade (nem precisa se restringir apenas ao Brasa). Desde grupos religiosos, passando por pessoas que detestam as minorias, que dizem que tudo o que estão fazendo é mimimi para chamar a atenção e coloca-las num degrau acima das outras pessoas, que tem nojo, que são promiscuas, etc. (esses grupos sempre vão arranjar mais e mais argumentos a cada dia que passa)

O mais recente caso polemico foi da série Super Drags, a 1ª animação 100% brazuca sob o selo Netflix. Isso despertou a ira e a antipatia desses mesmos grupos, já que a série seria uma animação e, segundo a maioria, animação sempre é voltada pra crianças.

Primeiro de tudo, animação nunca foi feita inteiramente pra crianças. E nem preciso voltar aos tempos das animações mudas. Os Flintstones já foram garotos-propaganda do cigarro Winston (sim, isso é verdade), a Disney era a campeã em exibir imagens estranhas em seus filmes tanto live action quanto animados e o mais recente animado Festa da Salsicha sofreu o mesmo tipo de críticas, mesmo estando no poster, nas propagandas, nas fotos de redes sociais, nos vídeos até mesmo nos guias de programação. Ou seja, povo reclama de falta de aviso, mesmo onde não tem. E a própria série alertava a todo o tempo ser para maiores de 16 anos em todas as propagandas (novamente, povo reclama de barriga cheia).

Segundo, que essa série seria a responsável por aliciar menores ao fazer eles “virarem” gays. Esse boato também já caiu, pois ser homossexual não é escolha, e sim uma característica intrínseca aos seres humanos. Certamente, vou ouvir milhares de pessoas me xingando nos comentários, porém quero fazer você refletir um pouco e não tomar tudo o que seu pastor, youtuber, professor, familiares dizem como verdades inquestionáveis e tomar para mim a frase de um pensador que creio que se aplica e muito aqui: “Vamos questionar tudo”.

Terceiro, porém não menos importante, pois essa série seria dublada pelas drag queen mais famosas aqui em terra brasilis Pabllo Vittar e Silvetti Montilla, dizendo que ela não são atrizes. Novamente, venho eu tendo de lembrar esse povo: há menos de 10 anos atrás, Luciano Huck também foi o dublador do filme Enrolados e nós sabemos no que isso ocasionou (será que alguém tem saudade disso?).

Já deixado o disclaimer/protesto/ranço/preciso explicar pro mesmo povo que se atrasa pro Enem a diferença entre comigo e com migo, vamos falar da série.

Três homens gays trabalham num shopping na cidade de Guararanhém, onde será realizado o show da popstar símbolo do universo LGBT, Goldiva (Pabllo Vittar). Porém, há pessoas que querem cancelar o show como Sandoval Pedroso, o líder religoso da congregação Templo Octogonal Gozo dos Céus, Jezebel (Sylvia Salustti), uma das fiéis fervorosas da congregação e Lady Elza (Rapha Vélez) que quer a todo custo ter para si todo o highlight (termo que significa a força vital gay). Porém, com a ajuda de Vedete Champagne (Silvetti Montilla), Patrick (Sergio Cantú), Ralph (Wagner Follare) e Donizete (Fernando Mendonça) vão fazer de tudo para impedi-los.

As referencias iniciais que podem se perceber é Power Rangers e todas as demais series super sentais. Os integrantes do grupo se transformam em combatentes com armas especiais, possuem comunicadores, habilidades especiais e, como não poderia deixar de ser robôs gigantes. Porém, vou mais além e coloco nesse caldeirão Três Espiãs Demais, onde vemos o dia-a-dia dos membros da equipe interagindo até que são transportadas pelos meios mais inconvenientes que desafiam as leis da Física. E claro até Sailor Moon, principalmente na hora da transformação.

A animação é bem fluída. Tudo é muito dinâmico e acontece muito rápido. O pessoal do Combo Estúdio, mesmos responsáveis pelo canal de animação do YouTube O (sur)real Mundo de Any Malu, mostram que não ficaram arraigados na fórmula do canal, ou seja vlog, e conseguem transpor muitos elementos como lutas ao estilo Dragon Ball (porém, sem a mesma intensidade. Leia-se: cada golpe não oblitera um planeta inteiro). Tudo é repleto de cores vibrantes e chamativas.

Os visuais das personagens parecem inspirados não apenas nas drags brasileiras, como também em algumas drags da série RuPaul’s Drag Race, que virou febre mundial. Tanto que a Goldiva tem inspiração na drag RuPaul Charles, Lemon Chiffon em Ginger Minj, Scarlett Carmesim em Shangela, Lady Elza em William Belli e Vedete em Trixie Mattel.

Há a presença de várias expressões idiomáticas do universo LGBT, conhecido como pajubá, oriundas dos dialetos africanos de varias religiões como ioruba e nagô. Mas não pense que é um bicho de sete cabeças que poderá te confundir. Mesmo aqueles pouco versados no dialeto, eles são acessíveis, sem serem didáticos.

A maior pergunta é: a série é panfletária (fica martelando o tempo inteiro respeito, aceitação e fim de preconceitos?)? Sim e não. Sim, pois isso é repetido diversas vezes, afinal este é um dos intuitos da série e não, já que é envolta numa roupagem cômica, onde não fica parecendo uma palestra monótona de várias horas que não significarão nada em pouco tempo. Pode-se dizer que a mensagem fica diluída, mas não chega a diminuir a importância da mesma.

Porém, nem tudo são flores. Uma coisa que incomoda em certos momentos é a necessidade de mostrar um pênis escondido em algum lugar da imagem, seja nos prédios, seja nos próprios personagens com membros avantajados balançando a torto e a direita, ou mesmo em fumaças. Inicialmente, é engraçado e inusitado, porém com o tempo fica repetitivo e perde a graça. Outra piada recorrente é o aparato Dild-O, que é o responsável por transmitir a missão, que sempre fica debaixo do longo vestido de Vedete, que repete o bordão “Dild-O, introduza” várias vezes.

As críticas feitas ao conservadorismo são inúmeras. Desde igrejas promovendo cura gay, pais que não aceitam filhos homossexuais, os mesmos gays que não estão dentro dos padrões de beleza da sociedade tendo dificuldades em arranjar parceiros até apresentadores de TV sendo abertamente contra o público LGBT.

As atuações são muito boas. Sergio Cantú como Lemon Chiffon é a mais centrada do grupo, Wagner Follare como Safira Cian é a mais ingênua e viciada em cultura pop das três, mas também a mais afetiva do grupo e Fernando Mendonça como Scarlett Carmesim é a mais barraqueira do grupo, sempre disposta a enfiar a mão na cara dos preconceituosos. Mendonça também é o Profeta Sandoval Pedroso, um dos inimigos mais ferrenhos das drags e líder da igreja Templo Gozo dos Ceús, representando pessoas como Marco Feliciano e Silas Malafaia em uma única persona. Silvetti Montilla é basicamente o Zordon/Jerry da equipe de drags, porém, com humor mais mordaz e sempre criticando quando as drags não conseguem cumprir todos os requisitos da missão.

Pabllo Vittar é a diva pop que você quer copiar (foi mal, eu tive que dizer, (quando eu teria outra oportunidade de dizer isso, hein?)). Mesmo sendo aventureira, ainda revela uma faceta pretensiosa, principalmente quando é obrigada a abrir uma porta. Eu confesso que achava que ela ficaria deslocada, porém combinou e não causou estranhamento, visto que a personalidade over da personagem consegue ser bem transmitida. Rapha Vélez é Lady Elsa, uma mulher que sonha em ter a mesma fama, nem que para isso tenha de exterminar quem ousar ficar em seu caminho. Sylvia Salustti é, de certa forma, uma versão em desenho de Raquel Sheherazade, porém ainda mais extremada e sem filtro.

A primeira temporada de Super Drags é uma grata surpresa em termos de produções brasileiras no serviço de streaming mais famoso do mundo. Visto que até então, só tínhamos produções de comédia ou drama inspirado em futuros distópicos como Jogos Vorazes, é interessante ver que o País começa a dar seus passos em animação no serviço. Agora, as apostas para a próxima temporada são altas, já que o padrão de qualidade foi muito alto e tudo pode acontecer, já que o gancho foi deixado ao fim do último episódio.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Agora, formado em Realização Audiovisual na Unisinos, dedico meu tempo a muitas outras aventuras emocionantes.