04
dez
2019
“Amor de mãe” supera expectativas para o horário, mas precisará de fôlego para segurar público
Categorias: Séries e TV • Postado por: Matheus Benjamin

Estreou no último dia 25 de novembro a novela Amor de Mãe, escrita pela roteirista Manuela Dias, que se destacou nos últimos anos por conta das minisséries Justiça e Ligações Perigosas. Manuela é a primeira autora a estrear no horário nobre da emissora sem nunca ter escrito outra novela para outro horário em sua história, tudo isso devido à boa recepção da crítica e público de seus trabalhos anteriores. A trama, supervisionada por Ricardo Linhares, foi aprovada em 2016 para produção e entrou na fila para substituir O Sétimo Guardião, de Aguinaldo Silva, mas por conta de alterações no texto, sugeridas por Linhares ocasionaram seu adiamento para novembro de 2019. Há rumores que os próximos autores da fila são Lícia Manzo (das ótimas A Vida da Gente e Sete Vidas, no horário das 18h), João Emanuel Carneiro (de Avenida Brasil) e Maria Helena Nascimento (Rock Story).

Inicialmente intitulada Troia, em referência à mítica cidade grega, Amor de Mãe narra a saga de três mães que se cruzam em algum determinado momento na história. Nesse sentido, pode-se perceber uma característica estilística marcante da autora: o multiplot. As tramas são interligadas de forma muito sutil, os personagens são figurantes das histórias de outros que estão em foco; tudo isso para mostrar que trata-se de um universo ficcional diverso, no qual as situações correm em paralelo. Manuela já havia provado sua capacidade em lidar com diferentes personagens interligados na excelente Justiça, que além de trazer inovações em linguagem e trama, trazia a cada dia um protagonista diferente.

Na novela, Lurdes (Regina Casé) é mãe de quatro filhos: Magno (Juliano Cazarré), Ryan (Thiago Martins), Érica (Nanda Costa) e Camila (Jéssica Ellen). Ela os criou sozinha, depois de migrar do Rio Grande do Norte para o Rio de Janeiro em meados dos anos 90. Seu gatilho para tal acontecimento fora a venda de seu caçula na época, um menino de dois anos chamado Domênico, pelo seu marido. Na confusão em descobrir onde o garoto se encontrava, Lurdes acabara matando o homem. A trama inclusive começa de um jeito bastante peculiar. Ao invés de trabalhar comumente com fases, utiliza com flashbacks em uma entrevista de emprego de Lurdes para ser a babá do filho de Vitória (Taís Araújo). Esta é uma das advogadas brasileiras mais importantes no país e representa Álvaro (Irandhir Santos), dono de uma empresa de embalagens plásticas que quer dominar uma região estratégica da cidade, local no qual está o restaurante da família de Thelma (Adriana Esteves), que descobre ter um aneurisma cerebral e tem os dias contados.

Regina Casé é Lurdes, uma mãe batalhadora à procura de seu filho perdido.

Thelma é mãe de Danilo (Chay Suede) e irmã de Sinésio (Júlio Andrade), que quer vender o restaurante a qualquer custo, mesmo com a oposição da irmã, que superprotege o filho, muito provavelmente devido a um grande trauma, no qual ela precisara salvá-lo em um incêndio que também matou seu marido. Quem desaprova essa relação é Amanda (Camila Márdila), atual ex-namorada de Danilo, colocando uma pulga atrás da orelha do rapaz, que agora passa por uma crise de identidade.

Inicialmente, a novela trata dessas histórias, com muitas camadas, inserção de personagens-chave com participações especiais de um elenco específico como Vera Holtz (Kátia) e Fabrício Boliveira (Paulo) e um drama muito forte. O texto de Manuela Dias é pontual e sem parecer didático, com o qual o público de tramas anteriores pudesse estar acostumado. Nessa primeira semana, o destaque positivo está para Regina Casé que traz consigo uma Lurdes extremamente bem feita, com nuances cômicas e grandes momentos. Um bom exemplo disso são suas sequências com os filhos; em um determinado momento, Érica recebe uma carona de seu “patrão” Raul (Murilo Benício), que também oferece uma carona à sua mãe. Regina o encara de forma desconfiada diversas vezes em terceiro plano do enquadramento, mas escancara seu talento de forma muito marcada.

Taís Araújo interpreta a famosa advogada Vitória, que ter o sonho de ser mãe.

A propósito, as tramas chamam novos personagens e inserções que vão se desenrolando mais e mais. O tom de realismo da cenografia também um ponto positivo que deixa a novela ainda mais verossímil e longe de estereótipos comuns. Os cenários são favorecidos pelo uso do novo estúdio da emissora que oferece essa qualidade própria para seus diretores de arte poderem abusar. O único defeito, nesse sentido, está no figurino de algumas empregadas que ainda utilizam seus uniformes característicos e um tanto quanto inverossímeis. A fotografia, encabeçada nos créditos pelo experiente Walter Carvalho, trabalha com enquadramentos muito precisos e cheios de linhas, texturas e pontos-chaves específicos, além de utilizar-se de uma decupagem de planos únicos e longos, nos quais é possível trabalhar-se com miudezas e detalhes bastante interessantes. Bons exemplos são as cenas de Thelma e Danilo em sua casa antiga e com portas grandes, quando são filmados do corredor dentro do ambiente em que conversam e também de Vitória conhecendo seu filho adotivo dentro de uma caixa de papelão, na qual é filmada pela janelinha da pequena casinha.

A abertura da novela traz nomes no elenco bastante conhecidos do público, contrastados com novos talentos. A representatividade nesse elenco também é algo que chama a atenção; muitos deles importados do cinema, como Clarissa Pinheiro, do longa Casa Grande, dirigido por Fellipe Barbosa, um dos diretores da novela, junto também de Noa Bressane (de Belair), Isabella Teixeira, Cristiano Marques e Phellippe Barcinski (de Entre Vales e outros curtas famosos como Palíndromo). A unidade artística da direção vem de José Luiz Villamarim, que repete a parceria com Manuela desde Justiça. Inclusive, a abertura é um dos pontos fortes, já que traz a canção É, de Gonzaguinha e um pillow shot bastante significativo com várias imagens de mães e seus filhos em momentos ternos. A tipografia e logotipo que inicialmente critiquei agora parecem fazer todo o sentido, de uma forma minimalista que casa com a ideia da novela.

Adriana Esteves vive Thelma, uma mulher que descobre ter aneurisma cerebral.

Um dos pontos que parecem ter altos e baixos é a trilha sonora. Embora tenha muitas músicas excelentes no repertório e até alguns temas já bem demarcados, elas são inseridas por vezes de forma excessiva; o que não parece ser um defeito criativo dos seus idealizadores, tendo em vista que outros produtos globais oferecem esse mesmo “descuido”, como é o caso de Shippados, série de Fernanda Young para o Globoplay, que também sofre desse mesmo excesso. Tirando isso, a trama tem qualidade, desenvoltura, um texto afiado e elenco de peso, o que me parece ser essencial para se manter.

O que me preocupa, no entanto, é a audiência a ser segurada de sua antecessora, A Dona do Pedaço, uma farofona que se difere muito em termos estilísticos. Pode parecer que trata-se do mesmo público, mas ao mesmo tempo pode ser que não. Algo muito importante para a Globo é a audiência e será que dessa vez a qualidade artística poderá também ser um super sucesso? Fica a dúvida no ar, saberemos em breve quando algumas alterações poderão ocorrer, devido aos grupos de pesquisas da emissora. O fato é que Amor de Mãe estreou com bons índices de audiência, cerca de 35 pontos de média e pode ser uma aposta (arriscada) e bem sucedida, mostrando que é possível oferecer ainda mais qualidade para o público. Pretendo continuar acompanhando, depois de quase cinco anos sem ver nada (desde Sete Vidas, em 2015). Os clichês ainda são muito sutis e embora possa não parecer, a linguagem audiovisual novelística está lá. Um bom produto de uma boa roteirista. Aguardamos ansiosos pelo desenrolar dos capítulos.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.