09
jan
2020
Crítica: “Kursk – A última missão”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin

Kursk – A Última Missão (Kursk)

Thomas Vinterberg, 2020
Roteiro: Robert Rodat
Paris Filmes

3.5

Thomas Vinterberg sempre chama a atenção por sua direção cuidadosa, expressiva e estilística. O que chama também a atenção é o fato de ultimamente estar escolhendo roteiros que abordem passagens históricas importantes, como é o caso de Longe desse insensato mundo (2015) e A Comunidade (2016); este Kursk, baseado em fatos traz à tona a negligência do governo russo para o resgate de marinheiros que passaram por horas de bastante tensão no fundo do mar a bordo de um submarino no começo dos anos 2000.

Baseado no livro de Robert Moore com roteirização de Robert Rodat, Kursk apresenta amigos marinheiros que parecem formar uma família extremamente unida. As primeiras cenas os apresentam se preparando para o casamento de um deles e durante a festa seus sentimentos são expostos, um pelos outros e por suas famílias. Um clima muito agradável para preceder uma tragédia que os deixaria enclausurados por dias em um submarino.

O primeiro plano do filme se dá com a apneia do filho de seu protagonista. Essa sequência inicial cuja câmera acompanha o personagem é um dos momentos mais estilísticos do filme, tendo em vista que a simbologia por traz desse ato, que é assistido por Mikhail com ternura no olhar é lembrado em outro instante. As relações de causa e efeito na narrativa são notáveis, como o caso das personagens não conseguirem ver as horas, já que venderam seus relógios para comprarem bebidas para o casamento de Pavel. Em um primeiro momento, o espectador menos engajado com a sinopse do longa poderá até mesmo pensar que trata-se de um drama familiar.

A janela de exibição muda quando o Kursk de fato emerge ao mar. Acompanha-se a maioria das cenas pela exibição em widescreen (padrão do cinema). Sendo assim, a fotografia trabalha de forma bastante inventiva com o que tem nas mãos, acentuando a iluminação em alguns planos, mostrando de forma quase claustrofóbica e aterrorizante em que os marinheiros se encontram; uma escuridão repleta de água e clima frio. Dessa forma, as cores trabalhadas dentro do submarino (e até mesmo com o elenco em terra) é bastante soturno, com tons extremamente escuros, azulados e acinzentados. Mas, de alguma forma, a ambientação deixa a desejar. O espectador pode se ver confuso na linha temporal narrativa, sobretudo por conta de uma falta de evidências que corroborem a época. Tudo é muito simples. A trilha sonora tem pontos-chave interessantes, sobretudo quando, logo no início, os personagens apreciam uma apresentação do Metallica por uma TV de tubo.

Quando se fala da habilidade em se trabalhar a atmosfera de tensão que o longa necessita, o trabalho do cineasta dinamarquês deve ser mencionado. O ordenamento das sequências, por meio da montagem também contribui no processo; no entanto, como por exemplo, em uma determinada cena, Vinterberg opta por filmar o rosto do ator que conversa com a cabine de comando sobre um problema. Visivelmente este personagem está incômodo com os rumos das ordens que lhe é dada, logo é nítido seu desconforto. A atmosfera criada em torno dele é a junção deste close-up com um plano geral do ambiente em questão, sem qualquer interferência de barulho, além de sua expressão de pânico e uma respiração ofegante. Dessa forma, o espectador, junto de seu personagem ficam aflitos para o que pode acontecer. E o que acontece é um grande impacto. SPOILER: um jump scare com um som extremamente alto.

Nesse sentido, Kursk é um filme que contém incontáveis momentos com boas atuações. A começar, menciono o ator deste personagem em questão. Matthias Schweighöfer (Pavel) está bem no papel em seu pouco tempo de tela e acredito que esta seja a cena em que mais pode-se notar um comprometimento e esforço em entregar um bom trabalho. O destaque fica para outros três personagens: Tanya (Léa Seydoux), Mikhail (Matthias Schoenaerts) e Leo (Joel Basman) que conseguem facilmente passar seus sentimentos por meio de olhares. Seydoux inclusive tem bons momentos dramáticos com texto afiado, sua personagem que antes poderia parecer frágil é bastante incisiva e confrontadora. Já Max von Sydow (Vladimir Petrenko) e Colin Firth (David Russel) desempenham papéis que chamarei de técnicos e sem grandes alardes. São personagens e atuações (obviamente) muito boas, porém sem grandes destaques.

Apesar de suas qualidades, o filme parece ter um tom morno conforme os minutos vão se acrescendo. As tensões entre os países, os personagens enclausurados e a angústia das famílias são intercaladas em montagens paralelas de ação; há pontos grandiosos de interpretação e também pontos em que nada acontece de extrema relevância. Alguma exposição do roteiro revela muito ao espectador e esse didatismo incomoda, tendo em vista que tudo soa repetitivo. Os personagens conversam sobre o que o filme já mostra. Embora seja um exercício eficiente e honesto de seus realizadores, deixa a desejar em quesitos mais básicos. Para quem não conhece a história original, pode se surpreender com o desfecho, que em minha singela opinião é satisfatório.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.