13
jan
2020
“Horror Noire”: como pensar melhor sobre a negritude no cinema de terror?
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

Podemos dizer que um dos cinemas mais populares nas últimas décadas é aquele que mexe com as emoções e medos dos seus espectadores. Podemos afirmar isso, inclusive, com base em diversos estudos, fenômenos e também bilheterias do cinema. No final dos anos 1990, o público viu a ascensão do found footage — filmes que simulam um vídeo encontrado que teria capturado a realidade, em alguma medida.

O sucesso estrondoso de filmes como Atividade Paranormal, na década seguinte, no entanto, mostrou que alguns resquícios desse subgênero ainda era muito valioso comercialmente. E assim, de cabeça, você se lembra se algum desses filmes tinha personagens negros? Como eram essas relações? Com o advento de cineastas como Jordan Peele, nos últimos anos, essas questões parecem se aflorar ainda mais.

É justamente isso que o trabalho de Robin R. Means Coleman investiga. Seu livro Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror, publicado no Brasil pela Darkside Books, é um estudo profundo com diversas camadas, leituras e discursos que são muito importantes de serem discutidos na contemporaneidade.

Para iniciar sua investigação, a autora se propõe a fazer algumas pequenas análises iniciais, partindo de alguns princípios básicos: existem filmes de terror com negros e filmes negros de terror. É importante perceber as diferenças, para também compreender de uma forma geral quais os pontos levantados nessa discussão.

Partindo dos primórdios da História do Cinema, contando a trajetória de artistas como Oscar Micheaux, um dos pioneiros dos chamados race films e, mais tarde, com as contribuições de Spencer Williams, Coleman traça um paralelo das representações de negros nesses dois tipos de filmes. Além disso, ao longo de suas diversas análises e comentários acerca do tema, construindo um sólido material de pesquisa, a autora também passa por clássicos do audiovisual, como Thriller, de Michael Jackson, para evidenciar essa participar dos negros ao gênero.

A relação da autora com os temas abordados também é muito íntima. Coleman é professora universitária e cresceu na mesma cidade, Pittsburgh, que cineastas muito importantes do gênero, como George Romero e Tom Savini. Seu desejo de pesquisar a negritude no cinema e, particularmente, no cinema de gênero é tão grande e importante para os estudos sociais atuais que nos fazem refletir acerca dos papéis dos realizadores — verdadeiros agentes de obras — na escalação e desenvolvimento de personagens.

Inclusive, como parte de sua pesquisa envolve uma série de análises aprofundadas de filmes, imagens, dados e outras questões, é notável perceber, por meio de uma lista de filmes favoritos, a influência do gênero terror em seus gostos, além de sempre enfatizar a presença de realizadores negros e histórias que contemplam personagens desta cor.
Em um sentido amplo, é interessante perceber os filmes que Coleman cita e que caíram no esquecimento, sobretudo por conta das questões que são traçadas. É o caso do Drácula negro, que foi considerada por muitos anos como um reconto sem importância e que não merecia um lugar ao Sol, até mesmo por historiadores, estudiosos e críticos.

Olhar para o papel que os negros têm desempenhado no gênero cinematográfico do terror, inclusive, enquanto público, também requer uma certa quantidade de análises mais aprofundadas. Nesse sentido, a importância de A Noite dos Mortos Vivos (Night of the Living Dead, no original), lançado em 1968 e dirigido por George Romero, é um dos pontos altos dessa narrativa, já que o longa apresenta um herói afro-americano muito carismático, refletindo também sobre a violência da época, nos Estados Unidos.

A edição do livro, trabalhada com diversos detalhes muito cuidadosos no que tange à personalização ao tema, trazem ainda diversas ilustrações interessantes, imagens contrastantes e uma diagramação cuidadosa.
Todos os ecos expandidos e trabalhados ao longo do livro também podem ser vistos em um documentário homônimo, dirigido por Xavier Burgin. São diversas entrevistas de trabalhadores da área audiovisual, estudiosos, críticos, pesquisadores que tentam discutir as ideias iniciais apresentadas neste livro.

E, mais do que nunca, precisamos nos atentar para essas questões que continuam a ser pauta na nossa sociedade. Horror Noire se faz presente como um belo estudo do cinema de terror e promete contribuir ainda mais para o pensamento crítico acerca do tema.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.