06
fev
2020
Crítica: “Judy – Muito além do arco-íris”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2020 • Postado por: Matheus Benjamin

Judy – Muito Além do Arco-íris (Judy)

Rupert Goold, 2020
Roteiro: Tom Edge
LD Entertainment

3.5

Para se manter na indústria do entretenimento é necessário algumas artimanhas e talvez ser naturalmente talentoso seja apenas uma das qualidades imprescindíveis nesse ramo. Infelizmente, algumas estrelas que fizeram muito sucesso outrora podem, de alguma forma, cair no ostracismo iminente sem que percebam, levando a vida de uma outra maneira. Digo isso, pois a impressão que fica ao assistir Judy (com o subtítulo clichê em português: muito além do arco-íris) é de que a vida da atriz e cantora Judy Garland, retratada na tela, teve um destino cruel por não seguir certos padrões dessa mesma indústria que em algum momento lhe vangloriou.

Este filme não pode ser considerado como uma cinebiografia, embora trate de assuntos baseados em fatos da vida de Judy Garland; trata-se mais de um relato sobre uma das passagens mais conturbadas de sua vida. Para quem não está familiarizado: Judy Garland foi uma atriz e cantora norte-americana, responsável por dar vida a Dorothy no clássico O Mágico de Oz, da MGM, dirigido por (entre outros diretores) Victor Fleming. Além deste, ela também atuou em outros filmes da produtora e no primeiro remake de Nasce uma Estrela (1954), mas ficou marcada mesmo por este papel, quando tinha apenas 17 anos de idade. Garland também foi mãe de três crianças: Liza Minelli, Lorna Luft e Joey Luft, que inclusive são retratados no filme. O longa aposta sua narrativa ao mostrar Judy (Renèe Zellweger) trabalhando com os filhos no final dos anos 60, quando em meio a sérias dificuldades, foi convidada a participar de uma turnê musical em Londres, na qual ganharia muito dinheiro e poderia se livrar de dívidas e comprar uma casa para que todos vivessem juntos. Mas a personalidade da artista e sua vida pessoal se mesclam de forma bastante perturbadora e tudo parece ruir.

Nesse sentido, o filme apresenta personagens que cruzaram o caminho de Garland nesse período, como Mickey Deans (Finn Wittrock), um jovem sedutor que aparentemente gosta dela, Rosalyn Wilder (Jessie Buckley), que lhe assessora durante sua estada em Londres e Burt (Royce Pierreson) o pianista com quem se apresenta. Apesar de não parecer didático em muitos momentos, na abertura e encerramento intertítulos são apresentados para ambientar o público no período em que a história se passa, assim como ilustrar um desfecho não retratado pelas câmeras. E embora a direção de Rupert Goold seja cautelosa nesses aspectos, ainda há um convencionalismo irritante em muitas passagens do filme, por exemplo, quando diz respeito à passagem de tempo ou a diálogos extremamente importantes com opções estéticas bastante comuns e aos maneirismos de ação dos personagens. Retratar a realidade factual, em muitos aspectos, se torna uma tarefa difícil, sobretudo por tratar-se de figuras icônicas.

De maneira impressionante, certos flashbacks também são recursos bem administrados na narrativa. Não que a personagem sempre apareça se lembrando de certos detalhes do passado, mas essas cenas surgem em momentos oportunos. Seu início, inclusive, mostra Garland bem nova conversando com o dono da MGM em tom de melancolia; outros momentos mostra Judy em extremo descontentamento para com sua carreira, devido a tantas imposições que, de certa forma, a traumatizaram.

Renèe Zellweger é quem parece carregar o filme nas costas, com uma atuação que parece compreender de fato a importância de Garland nos palcos. A atriz traz alguns traços bem marcantes da personalidade da artista e consegue interpretá-la de uma forma muito convincente, sem parecer forçada apenas para ganhar um prêmio, lembrando que Zellweger está indicada na categoria de Melhor Atriz por este papel. Existem momentos de completa ternura e deslumbre para com as performances de Garland, sobretudo no início das apresentações, quando por exemplo, um espectador que não conhece os fatos, não sabe se as desventuras narradas vão se concretizar ou se a artista vai conseguir se sobressair. Felizmente, estes momentos é quem fazem do longa algo interessante de ser assistido, assim como o encontro de Judy e seus fãs e também ao final, quando canta a canção que a consagrou, dizendo que há algo além do arco-íris.

O design de produção é bastante impressionante ao se aproximar em muito com os figurinos reais usados naquela época. Inclusive, é notável como o tempo é muito bem administrado visualmente, dando a impressão de realmente estarmos no final dos anos 60, mas sem parecer uma época imaginária, com exageros e extravagâncias. Tudo está posto em tela de forma quase orgânica, desde a maquiagem e figurinos, passando por penteados e cenários. A fotografia, aliadas ao design de produção, se mostra correta e sem muitos destaques; na verdade, há de se concordar que as imagens sobrepostas à luz deixam tudo mais emocionante. Há um trabalho bem feito nesse aspecto.

Com um final inteligente para a narrativa e com diálogos bem orquestrados dentro da trama, Judy – Muito além do arco-íris vale a pena pelas atuações e pelo saudosismo. Nunca é tarde demais para relembrar artistas que marcaram época e para também refletir sobre nosso papel enquanto espectador na indústria do entretenimento.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.