11
abr
2020
“A Criatura” e como confundir prepotência com homenagem
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Rayane Taguti

A Criatura

Andrew Pyper
DarkSide Books, 304 páginas
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1.5

O que Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula têm em comum (além de serem maravilhosas histórias de terror)? Um autor que confundiu prepotência com homenagem. Em A Criatura, Andrew Pyper distorceu o conceito de “inspiração” e destruiu o legado de Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e de Bram Stoker dentro do universo do seu livro ao colocar a sua própria criatura (quão original?) como a inspiração desses grandes clássicos do terror.

Lily Dominick é uma psiquiatra solitária e peculiar que luta contra a própria história do assassinato de sua mãe, quando ela tinha apenas seis anos de idade. Apesar de o começo desenvolver bem, não precisa de muito esforço mental para entender que todo esse suspense em volta da morte de sua mãe resultaria em um uma descoberta previsível – não irei revelar aqui, mas é isso aí que você está pensando. Voltando para a história.

Lily Dominick é uma psiquiatra forense talentosa, solitária e peculiar que luta contra a própria história do assassinato de sua mãe, quando ela tinha apenas seis anos de idade. Logo no segundo capítulo somos apresentados a um novo personagem, que cometeu um terrível crime apenas para ser levado ao local de trabalho de Lily, para que ela o analisasse. Esse novo personagem surge falando que não possui um nome (mas vamos chama-lo de Michael alguns momentos na história depois) e que possui mais de 200 anos. Acostumada a lidar com psicopatas, Lily começa a traçar seu perfil psicólogo, mas não pode negar que fica surpresa com o tanto de informações pessoais Michael possui sobre ela, inclusive informações que não poderiam ser encontradas com uma pesquisa aprofundada sobre sua vida. Michael também revela ser o pai de Lily Dominick.

De um dia para o outro, Michael foge do hospital, mata o superior de Lily e a faz correr o mundo atrás dele. Sim, é tudo rápido e impulsivo, não dá nem tempo de criar uma empatia com a personagem principal e seus motivos para abandonar tudo e correr atrás desse homem misterioso com uma aura meio mágica e bastante perigosa. Além disso, eu direciono essa pergunta telepaticamente para o Andrew Pyper: qual a pira em fazer a Lily ter uma atração sexual tremenda por um cara que afirma categoricamente ser o seu pai? Eu arrisco dizer que esse é um motivo inicial mais forte para ela correr atrás dele do que a possível verdade sobre a morte de sua mãe. Que erro. E mais, a criatura não é o único personagem por quem Lily faz bobeira por causa de atração sexual. Praticamente todos os homens que aparecem na história ativam os hormônios da mulher, chega a ser um absurdo. Para que tecer características superfortes para a personagem (ela é muito inteligente, definitivamente uma das melhores profissionais da sua área, é corajosa, entre outros) se vai torná-la submissa a qualquer órgão sexual masculino que chegue perto dela? O uso gratuito de uma sexualidade exacerbada não caiu bem para a história. E não foi a única coisa que deu errado por aqui.

Nessa corrida toda para entender sua própria história, Lily se depara, primeiramente, com a história da criatura. E é aí que o livro inteiro começa a desandar. Michael afirma ser a inspiração para o monstro de Mary Shelley – que, teoricamente, o iludiu, quebrou seu coração e o deixou com muita raiva. O livro tenta mostrar o lado da criatura, mas quem fizer um esforcinho para ver o lado de Shelley percebe que Michael criou na cabeça toda uma história de amor que não tinha correspondência em nenhum momento. E com essa artimanha de recriar a história de Frankenstein a partir de uma mulher fria e calculista, que se aproveitou de um homem apaixonado para criar uma história horrenda, Andrew Pyper eximiu Shelley de todo o maravilhoso trabalho que é o livro. Não consigo contar quantas reviradas de olho eu dei lendo essa parte em específico. Na continuação de sua história, Michael também coloca Robert Louis Stevenson na posição de um homem hedonista e frouxo, e Bram Stoker como um diretor de teatro fadado ao fracasso, não fosse por nosso queridíssimo Michael. Andrew Pyper errou feio ao colocar sua criatura como superior à criatividade desses renomados autores.

Após toda essa baboseira nonsense mal colocada no meio da história, voltamos para a história de vida de Lily Dominick, que volta até o refúgio no meio do Alasca que tinha com sua mãe para descobrir que, de fato, é filha de Michael e possui algumas das características dele também.

Por fim, o livro é até bom, atiça a curiosidade e dá uns leves arrepios no começo e no extremo final. Porém, analisando o conteúdo todo, deixa muito a desejar, além de ser levemente desrespeitoso com grandes clássicos. Um mal uso do domínio público de três grandes clássicos do terror mundial que poderia ser evitado com um pouquinho mais de criatividade.



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.