21
abr
2020
Crítica: “The Midnight gospel”
Categorias: Críticas • Postado por: Lidia Glória
TROQUE PELO POSTER DO FILME

The Midnight Gospel

Direção: Pendlenton Ward; Ducan Trussel, 2020
Roteiro: Pendlenton Ward; Ducan Trussel
8 episódios (36 min.)
Netflix

3.5

Pendlenton Ward (Hora de Aventura) voltou! Acompanha do humorista e apresentador de podcast Ducan Trussell, trouxe para Netflix uma nova série animada, adulta e psicodélica. Que tem tudo para adotar os orfãos de Rick and Morty.

A série conta a história de Clancy, um adulto de 44 anos, que foi morar em uma faixa cromática porque o terreno estava barato. Ele sonha em ter um Vídeo espaço-cast famoso e ganhar dinheiro, para isso viaja entre mundos, em um simulador antigo e defeituoso, entrevistando os seres que encontra por lá. 

A ideia da série é ser um podcast animado, mas a moda Ward então as entrevistas acontecem em cenários muito conturbados. Logo no primeiro episódio Clancy entrevista um prefeito falando sobre drogas enquanto luta contra um apocalipse zumbi. Em meio a essa loucura trazem comentários realmente validos, mas que nada tem a ver com o que acontece de backgroud. 

Temos ainda o problema que Clancy não cuida de seu simulador, nunca nem passou óleo verde de cabeça de lanterna que por algum motivo o impediria de colapsar, então todos os mundos estão em eterno apocalipse, contudo, os NPCs continuam tendo histórias de paz e meditação, mesmo depois de mortos. Como é o caso da Ane o cão cervo do episódio dois.

O Evangelho da Meia-noite também nos apresenta um protagonista de caráter dúbio, uma vez que fala de escutar as pessoas em seu espaço-cast, mas não escuta seu simulador pedindo reparos, aceita e concorda com toda uma história de amor e perdão, mas quando sua irmã Sara liga dizendo as mesmas coisas se irrita e desliga o telefone, além de expulsar os ratinhos que estavam buscando cura na rosa mágica que ele trouxe. Talvez a ideia de Trussel e Ward seja realmente trazer a luz a mentira de uma vida perfeita pregada por tantos influenciadores, já que não é novidade nenhuma criticas a sociedade em obras do Pendlenton, Hora de Aventura mesmo mostra entre outras coisas os horrores de uma guerra que extinguiu os seres humanos e deixou loucos os únicos sobreviventes adultos Simon e Hunson Abadeer.

A incoerência não está apenas em Clancy, temos vários personagens que pregam uma coisa e fazem outras. Um peixe que fala de deixar o que te prende nesse mundo e ascender a vida eterna e quando o faz é para bater no marido de sua ex amante, ou Trudy que começa a conversa dizendo que não devemos guardar ódio de quem nos fez mal e passa o episódio todo tentando se vingar de Rocambole que deu seu parceiro para um demônio comer. Midnight exemplifica muito bem o fato de ninguém conseguir ser totalmente bom e evoluído, sempre temos algo a melhorar como seres humanos mesmo.

Outro tema muito abordado no decorrer da animação é a solidão do Clancy que só tem um ouvinte e em momento nenhum conhecemos algum amigo dele, o simulador, no episódio seis, chega a falar que se preocupa por ele parecer preferir os mundos simulados a lidar com a realidade.

Hora de Aventura deixava espaços para teorias, porém isso não é nada se comparado com The Midnight Gospel, há um desfiladeiro para criar conspirações. Que podem ir do porquê dele colecionar sapatos até o onde foi parar as cadeiras de escritório que a morte comentou. Ainda, também depois do episódio seis, acontece a mudança de nome do protagonista, que passa a se chamar Ducan. Talvez, como se dissesse que o podcast dele fez sucesso igual o do criador da série, no entanto, como nos primeiros episódios ele era chamado assim corriqueiramente temos dois outros possíveis motivos: primeiro Ducan é o nome do antigo dono do simulador já que era de segunda mão como Clancy mesmo afirma em determinado momento; segundo os personagens conseguiam ver, aceitar e perdoar o personagem melhor que ele mesmo que só deixou de estranhar ser chamado de Ducan depois que a morte o fez perdoar seus erros e medos no episódio sete.

The Midnight Gospel é uma animação que tem um objetivo claro de passar mensagens reconfortantes ao espectador em sua superfície e induzir a reflexões profundas com base nessas mesmas mensagens. A ideia do desenho é te fazer repensar a própria vida, sua existência e como você afeta o mundo de uma maneira colorida e muitas vezes ingênuas. A experiência de assistir essa obra é no mínimo intrigante, mas você tem que ir de mente e coração aberto sabendo que não vai ver algo niilista como Rick and Morty, mas também te faz repensar tudo que é essencial com pensamentos como: será que eu só não estou entendendo as outras pessoas, igual os vivos no apocalipse zumbi? Ou ainda: estou passando óleo verde no simulador da minha vida?



Projeto de crítica cinematográfica que ama o cinema, mas tem problemas em lembrar nomes de diretores.