03
Maio
2020
Com Ryan Murphy, “Hollywood” empolga em história alternativa da cidade dos sonhos
Categorias: Séries e TV • Postado por: Matheus Benjamin

Existem diversos discursos no Oscar que são capazes de comover sua audiência. Desde o emocionante proferido por Hattie McDaniel, a primeira atriz negra a ganhar um prêmio da Academia em 1940 ao curto e grosso de Hitchcock em 1968. Entretanto, Hollywood, mais recente trabalho encabeçado pelo famoso produtor Ryan Murphy para a Netflix, traz uma história alternativa ao retratar discursos que — infelizmente — não pertencem, de fato, ao que foi registrado nos livros.

Mas não se engane. A minissérie de sete capítulos não é apenas sobre o glamour da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, mas sobre o jogo de poder envolvido por trás de uma das maiores indústrias do ramo no mundo; além é claro de todos os empecilhos que os jovens sonhadores aspirantes ao estrelato precisam lidar para alçar seus vôos e brilhar. Nesse sentido, a julgar pela bagagem de seu criador, o público pode esperar uma trama densa com sua seriedade costumeira — já vista em outras ocasiões em American Horror Story e The Assassination of Gianni Versace —, mas sem deixar que isso atrapalhe pequenas gags que soam interessantes na construção do roteiro.

Netflix/Reprodução

O que vemos em cena já foi retratado em outras ocasiões, como por exemplo em La La Land, de 2017. A aposta dos jovens sonhadores, que almejam um lugar ao sol nesta difícil indústria, necessitam não apenas de boa aparência e talento, mas de um conjunto que também tem um pézinho na sorte. Nesse caso, o roteiro consegue abordar essa difícil jornada com um melancolia em doses homeopáticas. A ambição que os estimula poderá ser desafiada a todo instante, seja por questões financeiras ou pessoas poderosas que podem lhe colocar na rota dos melhores contatos.

Logo conhecemos um de seus protagonistas, Jack Castello (David Coren­swet) um rapaz boa pinta que deseja se tornar um astro do cinema, mas parece não ter talento algum para o ofício, além de precisar fazer bicos como figurante para ajudar no sustento familiar, composto por sua esposa grávida (Maude Apatow). Sempre recusado nas seletivas de figuração — e também no empréstimo do banco — sua sorte parece mudar ao conhecer Ernie (Dylan McDermott), que lhe coloca para ser atendente em seu posto de gasolina, que mais parece-se com um bordel estilo drive-thru. O mais chocante, é que esse estabelecimento certamente existiu, de fato, na época.

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Estamos falando do pós-guerra. No qual, ao final da década de 1940, o cinema clássico estava cada vez mais em alta. O Código Hays, que regulamentava os “bons costumes” nas telas do cinema, impedia, por exemplo, que homossexualidade, questões de raça e outros assuntos polêmicos fossem assistidos pelos espectadores; tudo para preservar uma moralidade velada, já que os personagens apresentados aos poucos na trama fogem a essas convenções quando dialogam sem holofotes: todos sabem quem tem amantes, quem é homossexual, quem gosta de “perversões”, etc.

Nesse contexto, também somos apresentados ao jovem homossexual Roy Fitzgerald (Jake Picking), mais tarde batizado como Rock Hudson por Henry Willson (Jim Parsons), figuras reais que têm destinos bem diferentes da realidade nessa história alternativa. Hudson, segundo os relatos, teve um vida extremamente solitária motivada por seu inescrupuloso agente; há abusos físicos e psicológicos que são até mesmo difíceis de se assistir em alguns momentos. Hudson conhece Archie (Jeremy Pope) no mesmo posto de gasolina mencionado anteriormente. O jovem negro e homossexual almeja ser um roteirista de sucesso, mas sabe que a cor de sua pele pode dificultar essa trajetória, mesmo que não faça os chamados Race Films, iniciados com Oscar Micheaux

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Além deles, também vemos a história de Raymond Ansley (Darren Criss), um diretor iniciante que com seus ideais progressistas quer retratar cada vez mais as minorias nas telas, assim como sua namorada Camille Washington (Laura Harrier), uma talentosa atriz que também por conta de sua cor não consegue papéis relevantes, além das empregadas domésticas engraçadas repletas de estereótipos. Inclusive, a participação de Queen Latifah neste arco é uma das melhores coisas apresentadas na minissérie.

E o progresso não fica apenas por conta de Ansley. Devo citar também o reconhecimento quase tardio da atriz Anna May Wong (Michelle Krusiec), assim como Patti LuPone no papel de Avis Amberg, proprietária da Ace Pictures, logo após o adoecimento de seu marido, Ace (Rob Reiner). A personagem (e a atriz) tem momentos muito preciosos na narrativa, que ainda conta com a excelente química com Joe Mantello como Dick Samuels e a excêntrica (e perfeita) Ellen Kincaid, de Holland Taylor. Vale também citar a participação de Samara Weaving como Claire Wood, filha de Avis e Ace, além de Mira Sorvino no papel da quase decadente Jeanne Crandall.

O principal trunfo de Hollywood, além de amarrar todos os personagens para a produção de um arriscado longa-metragem que parece desafiar as instruções do Código Hays e dos protestos racistas vindos do sul dos Estados Unidos, é dar voz aos personagens em suas lutas, sem apresentar os famosos brancos salvadores que a indústria ainda insiste em retratar (até mesmo em vencedores recentes do Oscar). Além do protagonismo de Archie e Camille, há também de se levar em consideração a participação de Avis Amberg como uma mulher de negócios em uma atividade quase que inteiramente masculina — que se configura até os dias atuais.

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Nesse sentido, a fotografia e a cenografia fazem jus ao roteiro e aos aspectos mais impactantes da direção, composta por Murphy, Daniel Minahan, Michael Uppendahl, Janet Mock e Jessica Yu. Há planos interessantíssimos, sobretudo quando os personagens precisam confrontar uns aos outros. Um destaque positivo é a ambientação e condução da cena em que Henrietta comunica a Jack que irá deixá-lo. Outro fator positivo é o cuidado com as exposições que o roteiro poderia dar; há muitas sutilezas e saídas interessantes, como eufemismos e elipses que deixam tudo mais ágil e com ritmo.

Apesar da trilha sonora ser simpática, há alguns momentos em que ela quase passa despercebida, o que é uma pena. Entretanto, nada disso tira o mérito da produção, que merece ser vista, não apenas por entusiastas da história do cinema, mas também pelo público que ainda não acredita na intensa maquiagem que encobre a rotina de diversos astros da sétima arte. A história, como já suspeitamos, cada vez mais cuidará deles — e da forma que merecem.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.