05
Maio
2020
Como o Coronavírus está afetando a indústria do audiovisual?
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

As notícias cercando a difusão de coronavírus estão mudando tão rapidamente que os fatos logo se tornam velhos. No momento de publicar esta postagem, vários países impuseram restrições de viagem e outros tantos fecharam suas fronteiras, e a pandemia continua a causar estragos sem precedentes ao redor do mundo.

Dito isso, após o alarme ter sido disparado em outros setores, a indústria audiovisual passa agora por desafios igualmente sem precedentes, sentindo impactos que podem ter efeitos de longo prazo. A maior preocupação é a saúde e segurança de exibidores e frequentadores, porém, conforme pessoas são ordenadas a permanecerem em casa e evitarem contato umas com as outras, uma onda de cancelamentos e adiamentos apagou grandes eventos fílmicos do calendário, cinemas estão desertos devido às medidas adotadas por vários governos, e o gasto de consumidores também está caindo. Essa crise pode empalidecer levando em consideração que há pessoas morrendo, mas ainda assim o vírus tem causado caos na indústria cinematográfica global, e em algumas partes do mundo ela está sendo severamente afetada – especialmente em um ano que começou bem, e no qual se esperava alcançar lucros de centenas de bilhões de dólares.

Isso foi antes de aprendermos as palavras “coronavírus” e “Covid-19”. Porém, embora a incerteza pareça reinar suprema, há vários passos concretos que membros da indústria audiovisual podem tomar para mitigar os efeitos da difusão da doença. Conforme o número de infecções intensifica-se por todo o mundo e autoridades tentam impedi-las de aumentar, entidades responsáveis por organizar festivais de cinema e outros eventos estão sendo forçados a modifica-los e adaptá-los à situação atual.

Ainda assim, a indústria audiovisual pode se tornar uma vítima na crise do coronavírus. A Califórnia está começando a sentir o impacto, com produções e eventos tendo que decidir entre mudar o cronograma ou dar um ponto final diante das preocupações emergentes de saúde. Entidades audiovisuais canadenses já lançaram uma força-tarefa da indústria produtora no país, prometendo apoio ao setor em meio a este desafio para todos os envolvidos na indústria.

A indústria europeia de cinema também não é estranha às repercussões do surto: na República Tcheca, a Associação de Produtores Audiovisuais declarou que a produção cinematográfica do país pode chegar a decrescer 75% até o fim do ano como resultado do vírus, e encorajou o governo tcheco a introduzir incentivos especiais para apoiar a indústria doméstica de filmes nestes tempos de crise. O Festival de Cannes sofreu mudanças, e na Lituânia a pandemia forçou o Festival Internacional de Cinema de Vilnius a realizar uma edição online e cancelar seu encontro de profissionais da indústria. Pouco depois, pelo menos, em lugar do evento foi organizada uma conferência virtual, com a discussão sendo justamente sobre “o desafio de lançar um festival digital durante a pandemia de Coronavírus”.

No Brasil, a indústria audiovisual também está encarando sérias repercussões causadas pelo surto de Covid-19. Desde o começo da quarentena, governadores ordenaram o fechamento de cinemas por uma quantia indeterminada de tempo para reduzir a aglomeração de pessoas e mitigar a possibilidade de contágio. Enquanto isso, a ANCINE tem estabelecido medidas administrativas excepcionais, além de uma força tarefa para monitorar e analisar a execução de projetos já em curso.

É preciso lembrar, porém, que a indústria audiovisual não se limita apenas ao cinema. A indústria publicitária, por exemplo, está avaliando que impacto o aumento de casos de Coronavírus terá no gastos em anúncios em meio a economias instáveis, redes de suprimento afetadas e consumidores obrigados a mudarem seus hábitos para adaptarem-se à nova realidade. Segundo especialistas, a difusão contínua do Coronavírus e o maior gasto de tempo em casa dos consumidores poderão resultar em gastos crescentes com anúncios em áreas como serviços de streaming e jogos de celulares, enquanto os gastos podem decrescer em áreas como a publicidade em outdoors. Conforme o vírus continua a causar estragos em nossos cotidianos, a maioria também não está preocupada agora com grandes compras, havendo uma ênfase muito maior em comida ou papel higiênico do que uma TV nova. A própria Amazon decidiu priorizar os produtos mais essenciais para satisfazer a demanda que está tomando conta de seus depósitos e entregadores. O cancelamento de grandes eventos como as Olimpíadas e o fechamento de parques temáticos e de fronteiras tão perto das férias escolares podem ser outros grandes fatores afetando os gastos em anúncios.

A indústria de eventos, outro grande foco do audiovisual, também tem sido arrasada financeiramente por um número maciço de cancelamentos de casamentos, eventos corporativos, lançamentos de marcas, exibições comerciais e mais, e nos Estados Unidos milhares de profissionais já se juntaram para exigir ajuda federal do governo americano.

Parece que até este problema de segurança pública ser controlado continuaremos vendo o cancelamento de filmes e quaisquer grandes reuniões em grupo. Até lá, porém, nem tudo está perdido para a indústria audiovisual, ainda mais na era da internet, e mesmo soluções mais analógicas já se mostraram possíveis – a exemplo do festival “Cinema nas Janelas”, que exibiu curtas-metragens em telas panorâmicas para residentes da Zona Norte do Rio de Janeiro.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.