06
jun
2020
“Columbine”, de Dave Cullen, apresenta retrato impactante do caso que chocou os Estados Unidos
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

Columbine

Dave Cullen
Darkside Books, 480 páginas
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3.5

Alguns meses atrás peguei um ônibus para ir à faculdade e encontrei um amigo da mesma turma que a minha. Ele, que já tinha passado alguns meses nos Estados Unidos, me viu lendo Columbine, de Dave Cullen. Comentamos brevemente sobre a questão dos bailes de formaturas nas escolas e da questão dos massacres por lá serem algo bastante recorrente, sendo este último algo bem triste para a cultura norte-americana. 

Heitor, o nome dele, me disse que em um período de quatro meses tinha ouvido falar de pelo menos dezesseis tentativas ocorridas em escolas em todo o país. Um dado alarmante. Pesquisando brevemente no Google conseguimos perceber algumas dessas questões. E por meio do livro de Cullen, que traz diversos detalhes sobre um dos massacres que mais marcaram os estadunidenses, podemos perceber que isso pode acontecer, definitivamente, em qualquer lugar e a qualquer hora, também motivado por qualquer pessoa. 

A escrita de Cullen remonta livros de ficção. Em alguns momentos fiquei me perguntando se aquilo realmente se tratava de um livro de jornalismo investigativo ou se ele havia desenvolvido uma narrativa ficcional com base nos fatos. Acontece que mesmo nessa imersão, o autor consegue nos puxar de volta para a realidade. A pesquisa é tão minuciosa a respeito de todas aquelas pessoas que a confusão cria um ponto positivo para o livro.

Entretanto, essa questão parece dar ao livro uma carga excessiva demais em termos de conjecturas acerca do que os protagonistas — os dois assassinos — pensavam ou sentiam. Nesse sentido, a história avança em passos lentos até, de fato, chegar em situações mais curiosas acerca do evento traumático que acontecera. Mas há de se reconhecer que os muitos detalhes presentes na narrativa, os que antecedem principalmente, são bastante relevantes para a construção da persona de dois adolescentes aparentemente inofensivos.

Para quem não conhece, em 20 de abril de 1999, os alunos Eric Harris e Dylan Klebold, na Columbine High School, arquitetaram um plano que levaria à morte cerca de 13 pessoas (sendo um deles um professor) e ainda deixaria mais de 24 feridas. Após o crime, os dois adolescentes se suicidaram. A ocasião marcou os noticiários da época, discutindo questões que envolviam a legislação vigente na época e outras questões sociais como o bullying e transtornos psicológicos.

A tentativa de Cullen de entender a mente um tanto quanto sombria dos assassinos deixa o livro com uma proposta intrigante e interessante, além de fazer uma crítica à mídia que durante muito tempo trouxe à tona diversos mitos sobre a história. No entanto, na tentativa de ilustrar os desdobramentos das ações, acaba pecando justamente pelos seus méritos. No geral, se consolida como um bom romance de reconstrução dos fatos, mas, como dito anteriormente, pode se confundir com uma ficção.

A capa é bastante apropriada e chama a atenção do leitor, sobretudo pelo minimalismo. A edição apresenta um trabalho surpreendente em termos de diagramação, além de possuir uma fonte em tamanho adequado e espaçamentos em margens confortáveis para a leitura.

De alguma forma, quem se interessa pelo assunto tem uma ampla gama de possibilidades para serem lidas e assistidas. O documentário Tiros em Columbine, do cineasta Michael Moore, por exemplo, investiga as raízes das violências mais recentes à época (o filme foi lançado em 2002) partindo do evento do massacre em Columbine. Marilyn Manson,  Charlton Heston e Matt Stone são entrevistados.

Um outro filme que mostra um massacre, livremente inspirado na história de Columbine, é o longa Elefante, de Gus Van Sant, lançado em 2003. O filme ainda apegado ao que podemos chamar de Cinema de Fluxo apresenta uma narrativa delicada que se aprofunda aos poucos no cotidiano que tenta ilustrar. No entanto, as cenas de violência são chocantes e mostram o poder do cinema no retrato de histórias reais.

Por fim, uma indicação que foge um pouco do massacre acima exposto é Polytechnique, de 2009 e dirigido pelo cineasta canadense Denis Villeneuve. Ainda que apoiado em um drama real, o massacre da Escola Politécnica em Montreal, ocorrido em 1989, Villeneuve apresenta uma trama especulativa. Seu estilo, de apresentar pontos de vistas divergentes, é mais uma vez utilizado e traz um vigor primoroso ao roteiro.

Infelizmente, histórias como essas continuam acontecendo. Vale a pena investigar as principais questões que permeiam esses fatos e tentar, pelo menos aos poucos, compreender como o mundo se reconfigura em termos de violência. Nessa tentativa, ponto para o jornalismo de Dave Cullen.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.