26
jun
2020
Os streamings são realmente vantajosos para o consumidor?
Categorias: Artigos • Postado por: Hanon Arthur

Quantas vezes você foi ao cinema nos últimos meses? (descontando, claro, os meses de quarentena). É uma pergunta um tanto quanto clichê, mas muito pertinente. Com o fechamento dos cinemas por conta da pandemia da COVID-19, os serviços de streaming ganharam ainda mais espaço sobre as bilheterias, mas os cinemas já vinham perdendo espaço de maneira acelerada para os serviços online. 

Os números do streaming nos últimos anos são astronômicos. Segundo um artigo da revista Exame de dezembro de 2019,  a Netflix possuía um total de quase 19 milhões de assinantes nos EUA, Europa e América Latina. Não é à toa que a empresa dominou o mercado de streaming na última década, chegando a lançar filmes com acessos bem próximos as maiores bilheterias do cinema. O domínio foi tão grande que além de ocupar o espaço dos cinemas, a Netflix chegou a figurar vários filmes para as maiores premiações do cinema mundial, conseguindo até algumas estatuetas. Nada mal para uma empresa que começou no final dos anos 90 como uma locadora online regional. O fato é que novas empresas estão surgindo no mercado, muitas delas ligadas às grandes produtoras norte americanas, já estabelecidas há décadas no cinema. Segundo esse mesmo artigo da Exame, a recém nascida Disney + conseguiu em apenas um dia, 10 milhões de assinantes. Ela mantém a expectativa de um total de 90 milhões de assinaturas nos próximos 5 anos. Fazendo um recorte no Brasil, a Globoplay possuía em novembro, segundo a revista Exame, um total de 25 milhões de assinaturas.

Mas quais são os motivos para essa mudança tão acelerada dos meios de exibição dos produtos audiovisuais? um aspecto importante é o conforto. A maioria das pessoas que consomem audiovisual possui uma smart tv, um smartphone, ou um computador, capazes de reproduzir conteúdo dessas novas plataformas. Portanto, é muito mais cômodo para o espectador assistir seus filmes e suas séries favoritas no conforto da casa, na hora em que quiser, sem ter que sair, ou reservar um horário específico. Outro aspecto importante é o encarecimento do lazer nos últimos anos. Desde as crises econômicas mundiais, que começaram no fim dos anos 2000 e vão até hoje, as moedas se encareceram, consequentemente encarecendo a ida ao cinema. No Brasil, você pode gastar em média em torno de 50 à 100 reais para ir ao cinema, contando o preço do ingresso, as passagens de ônibus, a pipoca, etc. É uma situação muito desvantajosa, se comparado ao preço dos streamings, que costumam custar em média 10 à 40 reais por mês, além do fato deles fornecerem todo um catálogo variado que pode ser consumido no horário escolhido pelo consumidor. E mesmo que se perca qualidade e experiência nessa transição da tela grande para a tela (cada vez mais) pequena, é inegável que o perfil dos consumidores mudou radicalmente nos últimos anos. As novas gerações crescem consumindo audiovisual em celulares e computadores, mesmo com uma maior limitação de qualidade de som e imagem. Realmente essa não parece ser uma questão tão importante nessa transição. 

Portanto há uma transição clara dos cinemas para o streaming. Segundo um artigo da eMarketer, o streaming chegou a ter 1,8 bilhão de assinantes no mundo em 2018. Hoje esse número é muito maior. Um artigo da revista Época de dezembro de 2018 apontava que o streaming já tinha passado o número de bilheteria dos cinemas nos EUA e no Reino Unido e que possivelmente passaria as bilheterias no mundo nos próximos anos.

Frente a esse quadro temos uma percepção enganosa de que há uma democratização do acesso e da produção audiovisual. Como citado anteriormente, quase todos os serviços de streaming são associadas à alguma grande produtora já consagrada no cenário cinematográfico. É o caso da Disney +, Hbo Max, Fox Premium, Amazon Prime, Globoplay no Brasil e até a Netflix, que é hoje, inegavelmente, uma grande produtora. Portanto, a produção cinematográfica de grande orçamento continua nas mãos de poucas empresas. Aliás há uma clara tendência de monopolização da produção, basta ver as recentes aquisições do grupo Disney. Isso acontece porque esse processo é um círculo vicioso. Com os serviços de streaming as produtoras se vêm cada vez mais forçadas a investirem em inovações e tecnologias caras, para atrair público ou assinantes. A Netflix, por exemplo, planeja gastar nos próximos anos 15 bilhões de dólares em séries e filmes exclusivos. A HBO Max desembolsou 425 milhões de dólares para adquirir a exclusividade da série Friends. A maior bilheteria do ano passado foi também o maior orçamento. Os Vingadores – Ultimato foi orçado em 356 milhões de dólares. Ou seja, está significativamente mais caro fazer cinema. E os serviços de streaming são uns dos grandes responsáveis por isso.

Quem sai perdendo, ao longo prazo, por incrível que pareça, é o consumidor. Essa monopolização da produção gera uma monopolização também de conteúdo. Já pode se sentir esse efeito. Basta ver as 5 maiores bilheterias de 2019. Os 5 filmes são produções da Disney, sendo que 3 deles são filmes de super herói. Essa monopolização gera um esvaziamento das produções independentes, que geralmente são as grandes responsáveis pela diversificação do conteúdo audiovisual, porque essas produtoras não conseguem mais competir com as grandes cifras e as adesões em massa dos serviços streaming.

Por isso, como um amante do audiovisual, é preciso refletir até que ponto o ganho em conforto e variedade que o streaming nos proporciona é benéfico para a produção cinematográfica, especialmente a longo prazo.



Sou bacharel em História pela Universidade de São Paulo e atualmente curso Cinema na Faculdade de Artes do Paraná. Tenho 23 anos. Essas informações não significam nada, só estou aqui por ser amigo do Matheus Benjamim. Meus gostos são bem voláteis, mas atualmente meus diretores favoritos são Orson Welles, Paul Thomas Anderson e Yorgos Lanthimos. As vezes eu fico meio rabugento quando escrevo, então peço que relevem.