17
jun
2020
Retrato de uma Jovem em Chamas e a eternalização da lembrança
Categorias: Artigos • Postado por: Rayane Taguti

Em Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), Céline Sciamma conduz o espectador a testemunhar um breve, mas marcante momento da vida de duas mulheres na França do século XVIII. Somos apresentados primeiramente à Marianne (Noémie Merlant), professora de arte em Paris e pintora. Ao ser questionada por uma aluna sobre a obra de uma mulher com o vestido em chamas,a própria pintura nos leva ao passado de Marianne, quando foi contratada por uma condessa para a confecção do retrato de sua filha, Héloïse (Adèle Haenel). O desafio com o qual Marianne se deparou – e que chegou a enlouquecer outro pintor antes dela -, foi ter que pintar a jovem “de memória” e às escondidas, visto que esta não estava satisfeita com a ideia do noivado e se recusava a posar para ter sua representação enviada ao pretendente em Milão.

A história do longa de Sciamma, apesar de relativamente simples – a construção de um relacionamento entre artista e modelo, desde a desconfiança inicial, passando pela vivência do amor e, então, a separação -, é de uma sensibilidade sem tamanho. O público e as personagens lidam com o desenvolvimento de uma história sem perceber o seu início, mas tendo certeza do seu fim. Todos os envolvidos no e com o filme sabem que a relação entre Marianne e Héloïse é passageira e tudo o que resta é entender como eternizá-la.

A tragédia de Orfeu guia bons pedaços da narrativa e é a chave para entender as lembranças de Marianne. De acordo com as instruções de Hades, o poeta Orfeu deveria conduzir Eurídice, sua amada, do mundo inferior de volta à superfície, mas com a condição de não a olhar. Nos últimos instantes antes de chegarem à superfície, Orfeu se vira para a amada, condenando-a à morte pela segunda vez. De volta ao filme, após lerem a passagem de Orfeu, a criada Sophie (Bajrami) não entende como o medo de perder a amada e a impaciência para vê-la sejam motivos para o poeta se virar e, de fato, sacrificar o retorno. Héloïse entende que ele escolheu ficar com a lembrança da amada, mesmo não sendo seu direito sacrificar sua vida. Marianne conclui que Orfeu não fez a escolha dos apaixonados, mas do poeta. Em uma tentativa de adaptação para Retrato de uma Jovem em Chamas, seria possível compreender que Marianne, pintora, artista, vivendo no começo da época que chamamos de Romântica, entende e se põe na posição do poeta. Ao não pedir que Héloïse resista ao casamento, Héloïse sabe que Marianne optou pela lembrança.

Portrait of a Lady on Fire F U L Image by formaterede

O longa é muito mais que uma história de amor e uma reflexão sobre a lembrança do mesmo. Céline Sciamma não tem medo de abordar temas que eram tabus em 1770 (e alguns continuam até hoje), como mulheres não poderem conhecer a anatomia masculina e terem seus trabalhos restringidos, além de aborto, independência, intelectualidade feminina, entre outros. A cena de Sophie, por exemplo, induzindo um aborto enquanto estava de mãos dadas com um bebê é de uma sutileza estranhamente impactante. Além disso, não só as atrizes e a diretora/roteirista merecem crédito, mas toda a equipe, como a fotografia liderada por Claire Mathon, o figurino de Dorothée Guiraud, o design de produção nas mãos de Thomas Grézaud, as pinturas dos quadros por Hélène Delmaire, a música por Jean-Baptiste de Laubier e Arthur Simonini, e todo o resto da equipe, que teve um excelente trabalho de trazer concisão em cada detalhe, nas cores, nos enquadramentos e até no silêncio.

O que nos conforta com a impossibilidade da relação das duas personagens é saber que, como uma boa história de amor e mesmo que passageira, ficou eternizado, seja na pintura, na música, na página 28, na lembrança ou, para a felicidade do espectador, nas belíssimas duas horas de projeção do filme.



Fã de todas as artes, tento atuar em cinema, música e literatura. Atualmente curso Cinema e Audiovisual na FAP. Do cult ao farofa, da nouvelle vague ao trash, do comercial ao experimental, curto tudo que gere uma conversa de bar ou uma crítica pro site.