31
ago
2020
Crônicas da Quarentena: 7 Filmes sobre o colapso da humanidade
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: David Ehrlich

Conforme diferentes crises (ou, pelo menos, ameaças dessas) aparecem em nossa história, o cinema constantemente dialoga com elas, e algumas perguntas se mostram frequentes: o quão resistente afinal é a humanidade? Em uma situação crítica, o que estamos dispostos a fazer para nos salvarmos? E o quanto afinal merecemos nos salvarmos? Seja diante de uma epidemia, da falta de recursos naturais, do avanço descontrolado da tecnologia ou de uma anomalia além de nossa compreensão, essas perguntas estão quase sempre presentes. E a seguir apresentamos alguns filmes que tentam responde-las.

OS DOZE MACACOS (TERRY GILLIAM, 1995)

Adaptação do curta-metragem La Jetée (1962), o filme apresenta um século 21 no qual a humanidade foi destruída por um vírus artificial; animais andam livres pela superfície, enquanto as poucas pessoas restantes sobrevivem embaixo da terra. O protagonista, interpretado por Bruce Willis, deve viajar ao passado para descobrir a origem do vírus, porém é tratado como louco por todos que encontra – levando-o a questionar sua própria sanidade e o quanto sua missão é ou não real. A narrativa quase delirante, junto com a direção particularmente barroca de Gilliam, torna este filme uma das explorações mais excêntricas do cinema sobre livre arbítrio e destino.

EXTERMÍNIO (DANNY BOYLE, 2002)

Considerado o filme que reinventou o gênero zumbi, Extermínio deixa para trás os mortos-vivos que se levantam de seus túmulos para (muito) lentamente perseguirem humanos; aqui, os zumbis são rápidos e brutais, frutos de um vírus lançado acidentalmente após um ato irresponsável de ativistas da causa animal. O fato de o filme ser ambientado na Grã-Bretanha dá um novo tipo de desespero a ele: com quase toda a sua população infectada ou evacuada, os poucos sobreviventes restantes veem-se quarentemados em uma ilha da qual não há saída, e tudo que podem fazer é esperar (pelo que?) e tentar não morrer – seja por conta dos zumbis, seja por conta uns dos outros.

FILHOS DA ESPERANÇA (ALFONSO CUARÓN, 2006)

Com sua direção e construção de mundo impecáveis, Filhos da Esperança mostra uma Terra na qual uma misteriosa pandemia causou ampla infertilidade entre mulheres; dezoito anos depois, o caos e a incerteza assolam uma humanidade desesperançada quanto ao próprio futuro. O Reino Unido apresenta-se como “a última nação civilizada do mundo”, mas logo se percebe que na verdade é uma distopia que trata brutalmente imigrantes em busca de um pouco de dignidade em meio ao fim do mundo, e uma guerra mostra-se iminente. É então que um burocrata deprimido (Clive Owen) descobre um último resquício de esperança na forma de uma imigrante grávida (Clare-Hope Ashitey).

CONTÁGIO (STEVEN SODERBERGH, 2011)

Sim, todo mundo tem falado deste filme ultimamente, mas é no mínimo surpreendente como seu enredo lembra o momento atual que vivemos, retratando os efeitos de uma pandemia de forma bastante realista: uma misteriosa doença viral (cujo contágio se dá de forma semelhante à Covid-19) surge em Hong Kong e rapidamente se espalha pelo mundo através de uma americana infectada que viaja de volta para casa. Enquanto cientistas buscam uma vacina, o filme torna-se um estudo sociológico sobre o colapso da ordem social, com pânico generalizado causado por teorias da conspiração e notícias falsas, e pessoas comuns tomando péssimas decisões conforme buscam sobreviver.

INTERESTELAR (CHRISTOPHER NOLAN, 2014)

Fale o que quiser sobre o filme não ter tanta substância quanto finge e seu final problemático, mas ele é bem sucedido em um ponto crucial: o desespero emocional de astronautas que correm contra o tempo para encontrarem um novo planeta habitável. Mostrando um futuro no qual nossa sobrevivência é ameaçada após um colapso ecológico que resultou na deterioração das colheitas e em enormes tempestades de areia, Interestelar possui alguns dos visuais mais impressionantes do cinema recente, tanto na Terra – com tempestades inspiradas nas Dust Bowls da década de 1930 – quanto no espaço – com uma representação que mais tarde provou-se certeira de um buraco negro.

ANIQUILAÇÃO (ALEX GARLAND, 2018)

Embora não lide diretamente com um colapso da humanidade, o tema central de Aniquilação é um fator importante nesse tipo de discussão: a propensão humana para a autodestruição. Através da história de um time de pesquisadoras que se aventuram por uma área quarentemada chamada apenas de “O Brilho” e lá encontram todo tipo de fenômeno que desafia as leis da natureza – como animais híbridos e plantas em forma de humanos -, o filme, em meio a cenas oníricas que assustam e maravilham ao mesmo tempo, provoca o espectador a refletir como nenhum outro sobre essa dita autodestruição, tanto a nível de o que seria essa destruição quanto de o que seria destruir a si mesmo.

I AM MOTHER (GRANT SPUTORE, 2019)

É difícil falar deste filme sem acidentalmente dar algum spoiler, mas essencialmente ele se passa em um futuro no qual a humanidade foi aparentemente extinta, com a exceção de milhares de embriões mantidos seguros por um robô conhecido apenas como “Mãe” (Rose Byrne). Um desses embriões se desenvolve em uma jovem chamada apenas de “Filha” (Clara Rugaard), que vive sozinha com Mãe em um bunker – até uma mulher (Hilary Swank) subitamente aparecer, alterando sua vida perfeitamente equilibrada. O filme explora não apenas a tensão entre inteligência artificial e emoção humana, mas também utiliza a ficção científica para fazer um estudo sobre maternidade tóxica.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.