01
nov
2020
“Goodfellas”: da literatura para o cinema, Nicholas Pileggi costura história de mafioso com maestria
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

Em 1990, Martin Scorsese se aventurou em contar a história de ascensão e queda de um importante mafioso nos Estados Unidos. O filme resultante disso, conhecido no Brasil como Os Bons Companheiros, traz diversas referências a filmes clássicos de máfia, além de uma direção concisa e competente por parte de seu autor. O que muita gente talvez não tenha se atentado é que o filme se baseou no livro homônimo de Nicholas Pileggi, publicado originalmente em meados dos anos 1980.

A princípio, é necessário ressaltar a edição luxuosa lançada recentemente pela Darkside Books. O livro possui capa dura e fita marcadora, como de praxe, além de um design minimalista que remete a um objeto quase central da narrativa. Acompanhando o livro, há um marcador que também remete a esse mesmo objeto; toda essa visualidade consegue aproximar ainda mais o leitor da trama, considerando toda a criação e integração das relações entre os personagens citados — também marcada pelos conflitos reais.

Os Bons Companheiros + Brinde Exclusivo - DarkSide Books

No livro, portanto, conhecemos Henry Hill, um jovem que foi atraído para a ardilosa vida do crime organizado, a máfia no caso, por conta de todas as vantagens e glamour que foram expostas e ele. Henry realmente existiu e é justamente por meio dele que mergulhamos na história que vem a seguir. Nicholas Pileggi fez um trabalho investigativo da figura do jovem mafioso por meio de entrevistas e é a partir delas que os fatos vão sendo amarrados e costurados em uma narrativa muito interessante e gostosa de ser acompanhada.

O autor, no ponto de escrita deste livro, era um ex-repórter policial, com vasto conhecimento sobre o crime organizado e também sobre a máfia centrada nos Estados Unidos. Pileggi também utiliza de sua bagagem como instrumento de análise, fornecendo ao leitor detalhes importantes que poderiam sair despercebidos sem uma competente costura. 

E o escritor também justifica sua escolha em tratar dessa narrativa porque a trama de Henry se diferenciava de todas as outras que já tinha tido algum tipo de contato justamente porque os “delírios egomaníacos” de muitos agentes do crime lhe cansavam. Henry Hill era um estranho para o crime até ser devidamente apresentado e ao contrário de muitos, estava sempre buscando proveitos em diversas situações. Tudo isso sem nenhum pudor.

Por meio de suas próprias histórias, Pileggi consegue pegar elementos essenciais do que Henry lhe conta sobre a realidade do crime organizado. E é também nesse emaranhado de informações da narrativa que percebemos que o jovem era muito esperto e sabia muito bem o que estava fazendo e com quem estava se envolvendo. O autor enfatiza que Henry nunca deixou de admitir, em nenhum momento, o quanto se divertiu com todas as vantagens oferecidas. 

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Interessante também perceber que Henry não tem qualquer tipo de cumplicidade ou código de honra com seus colegas criminosos. Ele é muito honesto sobre seus bons companheiros, sabendo que alguns até eram  psicopatas, que descartavam pessoas quando elas não lhe serviam mais. E por trás de todas o glamour e as amizades de fachada, havia uma corrente constante de violência e ameaça. 

Caminhando para o desfecho da narrativa, também é notável perceber que Henry Hill, estabelecido em sua nova vida e tendo que fugir das pessoas com quem cresceu, ele admite que sente de falta de como tudo acontecia anteriormente. A tranquilidade, para ele, talvez seja uma grandiosa tristeza. O ex-mafioso morreu em 2012, aos 69 anos de idade. 

Depois de terminar o livro, é preciso ressaltar que ele traz uma visão fascinante do funcionamento do crime organizado e da vida cotidiana de um mafioso sem escrúpulos. Sem dúvidas, a tradução cativante de Pileggi para tudo o que é exposto traz elementos muito consistentes para o leitor e fornece ao espectador do filme de Scorsese mais detalhes sobre o obscuro mundo glamuroso do dinheiro sujo.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.