10
nov
2020
“Psicopata Americano”: romance de Bret Easton Ellis traz severa crítica temáticas contemporâneas
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

Publicado originalmente em 1991, Psicopata Americano (American Psycho, no original) — um título muito sugestivo, diga-se de passagem —, escrito por Bret Easton Ellis, trouxe à tona um protagonista que gerou muito interesse dos leitores por conta do seu comportamento um tanto quanto sádico e diferenciado de tudo que já havia sido publicado até então.

O romance se tornou bastante polêmico na época de publicação, enfrentando a ira de diversos críticos, boicotes de órgãos oficiais e leitores completamente cheios de dúvidas sobre o que haviam acabado de ler — afinal de contas, os temas abordados ferem um pouco da moral humana e choca qualquer um que tenha contato direto com a obra. Mas o mérito dela está justamente nisso e o tempo de maturação fez muito bem ao livro.

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Patrick Bateman, um famigerado narcisista de Wall Street, eternizado no cinema por Christian Bale, em 1999, é um personagem muito interessante e até cativante, excetuando o fato de que trata-se de um psicopata extremamente dúbio, perigoso e metódico. No entanto, a forma como o autor o aborda traz aos leitores nuances muito interessantes de leitura, além de uma narrativa densa, porém gostosa de ser acompanhada pelas quatrocentas e poucas páginas do livro.

A edição da Darkside Books salta aos olhos, por conta de todos os detalhes. Há um misto de cores que ornam de forma orgânica e que remete diretamente aos temas abordados no livro. Temos fortemente o azul, o vermelho, o branco e o dourado. A bandeira dos Estados Unidos está impregnada na obra, bem como a simbologia imposta pelos aparatos biológicos (na capa e nas folhas de guarda). 

A cada novo capítulo, o leitor visualiza uma chamada curiosa — que também pode ser apenas uma palavra —, além de uma estrelinha que semioticamente está ligada ao que o romance também propõe. O corte, em vermelho e a fitinha da marca Crime Scene também dão um charme à edição. A diagramação possui uma fonte em um tamanho menor que o habitual, comparado a outros livros da mesma editora. No entanto, isso não desgasta a leitura ou cansa os olhos. Tudo está uniforme e confortável.

É inegável ressaltar que Psicopata Americano se tornou uma obra canônica como forma de sátira, trazendo críticas sociais pertinentes aos leitores. Ela é considerada por diversos estudiosos das questões de gênero e sexualidade como uma avaliação contundente da masculinidade descontrolada. E de alguma forma, o livro também se mostra crítico a outras temáticas, como das consequências culturais contínuas do capitalismo contemporâneo.

E tudo isso, por que o romance apresenta personagens envoltos nas famigeradas exibições ritualísticas de dominação em Wall Street, mesclando tudo isso à psicopatia de seu protagonista. Vemos um personagem provocando a si mesmo em vários momentos, se comportando de formas exageradas e também violentas. Tudo isso parece sugerir certos costumes quase que intrínsecos à elite comercial urbana da época.

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A julgar pela bagagem de Bret Easton Ellis na época, nada disso havia sido jogado aos leitores. O interesse dele de desvendar certos comportamentos dessa elite parece estar entrelaçado a outros romances. E Patrick Bateman, para além de tudo o que já foi comentado, possui uma superfície que não revela quase nada de anormal a ninguém. Ele é apenas como mais um entre tantos outros ao seu redor. Inclusive, há uma certa piada permeando as páginas que relaciona essa semelhança indireta entre todos eles. 

A obsessão patológica de Bateman ajuda nos objetivos de seu autor, ao descrever uma sociedade superficial sem qualquer tipo de nuance marcante. E Ellis consegue ir além em suas temáticas, evidenciando com maestria certos lampejos significativos dessas construções críticas. As descrições de ações estão muito bem colocadas e trazem ao leitores visões interessantes acerca do que poderia ser a mente de um psicopata. E pode ser que muitos leitores se assustem com a brutalidade das descrições, pois elas realmente possuem uma força latente.

Nesse sentido, o grande mérito do livro não é demonstrar o óbvio, mas sim trazer à tona pontos relevantes para uma discussão que transcende aos personagens e à narrativa trazida nessas páginas. Sem dúvidas, é um grande romance que ganhou uma grande adaptação e que pode alcançar objetivos intensos em determinados leitores por conta de todas as suas discussões.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bodansky. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice." e "Lado B", pela Pessoas na Van Preta.